Equívocos na mídia e na política

Por Celimar de Meneses

Para estudantes de comunicação ou aficionados pela imprensa, existe um norte, ensinado pelo mestre Millôr Fernandes, para a boa prática da atividade jornalística. Consiste no seguinte: Jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados.A frase significa que o jornalismo tem que desconfiar e fiscalizar a todos, imparcialmente. Aparentemente a grande imprensa entendeu mal, e os grandes meios julgam que jornalismo tem que atacar o governo, simplesmente, não importando o custo. Daí resulta omissão de informações, interpretação distorcida da realidade e a escolha de um “lado”. Jornalismo medíocre.

Exemplo notório foi a cobertura da ascensão de Eduardo Cunha à presidência da Câmara dos Deputados. Pouquíssimos veículos impressos lembraram do envolvimento do político em esquemas de corrupção, como no caso PC Farias em que estava envolvido com o então Presidente Collor. Preferiram salientar como o deputado podia representar dificuldades ao executivo e a governabilidade, a capacidade de Cunha de se opor.

A revista Veja, lembrou as antigas falcatruas do político, na edição de 25 de março, depois de já eleito presidente da câmara. Todavia de maneira irrisória e enviesada, acreditando na possibilidade de mudança no caráter do deputado. Otimismo ingênuo? Dificilmente. A revista não mostra a mesma compreensão com outros sujeitos, e exacerba críticas no intuito de prejudicar o governo, como exemplo a capa do dia 29 de outubro às vésperas da eleição no ano passado. Assim não tem graça.

Decadência política

A decadência não é exclusiva ao jornalismo. Um dia, no transporte público, conversei com um senhor, já de idade, que lamentava a falta de “boniteza do discurso” na política. Fernando Collor, que já esgotou seus xingamentos ao procurador da República, Rodrigo Janot, está aí para comprovar a afirmação. Antes fosse só no campo linguístico. A política brasileira está medíocre. O cidadão pode procurar no planalto, no congresso, nos variados partidos, mas vai achar poucos vultos da república que de fato façam a diferença. Sujeitos como Ulysses Guimarães, Tancredo Neves e Itamar Franco fazem falta nos anais da democracia.

Lula devia aprender com Romário

Ao Brasil restou um herói, propriamente do povo, e não é Lula. Me refiro ao ex-jogador e agora político, já com certa experiência, Romário. Àquele que não acompanhou os acontecimentos do fim de julho, aí vai a explanação dos fatos. O ex-jogador foi caluniado pela revista Veja, sob acusação de manter dinheiro ilegal na Suíça. Romário, que agora é senador, forte candidato à reeleição e comandante de uma CPI, não se desesperou, prontamente comprou uma passagem à Genebra e retornou com o documento provando sua inocência. À revista Veja, outrora exemplo de bom jornalismo, restou se desculpar.

O ex-Presidente Lula com frequência também é atacado. Na mídia, o associam a imagem de corrupto devido a sujeira de seu partido, apesar de nunca provada atividade ilegal em nenhum dos dois governos. Lula responde atacando jornalistas, acusando-os de desonestos, como se o ex-Presidente pudesse medir o caráter dos profissionais com algum aparato de alta tecnologia. O que Lula não sabe, ou nunca parou para pensar, é que os jornalistas têm que seguir uma linha editorial, cobrindo inúmeras pautas por dia, comumente contra o tempo, e o mais importante, precisam ganhar dinheiro para sobreviver.

E nesse ponto Lula pode aprender com Romário. Não é necessário perder a boniteza de discurso só para rechaçar acusações, o que faz efeito mesmo é rebate-las com fatos. Lula podia começar por aí, caso não dê certo deve ser efeito colateral da mídia centralizada e comercial. Aí a saída é clara, Lula só precisa pedir a sua apadrinhada política e presidente da República, Dilma Rousseff, para fazer a democratização da mídia, que é prevista em constituição.

Lançar desaforos a jornalistas que estão trabalhando não vai ajudar, só aumenta o clima de tensão e o radicalismo de ideias. À brava gente brasileira, resta a esperança de uma renovação política e recuperação econômica, por enquanto a nação parece seguir sobrevivendo na base de aparelhos. Ao menos é isso que os jornais dão a entender…

2 comentários sobre “Equívocos na mídia e na política

  1. barmanverde disse:

    Sagaz esse Celimar.
    Muito embora me tenha feito torcer o nariz a ausência do ex-presidente Lula entre as figuras grandes da nossa democracia, sendo ele um marco histórico, social, econômico e diplomático na política brasileira e, sobretudo, por ressaltar as críticas dele que, apesar de corretíssimas foram, de fato, deselegantes, se sagrou na ressalva:

    Se incomoda a Lula, a Dilma, ao PT ou à esquerda-mole brasileira no poder o monopólio da mídia por publicações elitistas, golpistas e reacionárias, por que não a democratiza?
    Hora de recrudescer e acabar com lobbys contraprodutivos.

    Abraço!

    Curtido por 1 pessoa

    • celimardm disse:

      Muito obrigado pelo elogio, meu caro. Devo admitir que não pus o nome do ex-Presidente Lula como que por resguardo. Enquanto a biografia de uma personalidade não esta completa, talvez seja mais prudente se abster de comparações. Todavia não nego sua participação importantíssima na história do Brasil e seu papel de maior líder da esquerda nacional.

      Tua fala não podia ter melhor conclusão, hora de recrudescer e acabar com lobbys contraprodutivos. Muitíssimo obrigado pela intervenção precisa e pelo somatório ao diálogo.

      Forte abraço!

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