Nem freira, nem puta

Por Danielle Assis

“Tem cabelo curto, deve ser lésbica”. “Quem não tem religião não tem moral”. “Depila e usa maquiagem, essa não é feminista”. “É goiano? Adora um sertanejo”. “Não confio em tatuado”. “Aposto que aquele pretinho não tem nem onde cair morto”. “Maconheiro é vagabundo e não tem futuro”. E por aí vai.

Antes de qualquer coisa, é importante ressaltar que nada do que está acima é errado. O estereótipo não é uma coisa falsa, seu maior problema é ser incompleto – e isso tem consequências que vão muito além do preconceito.

Claro que muitas lésbicas têm cabelo curto, mas muitas mulheres heterossexuais também. E muitas mulheres gays têm cabelo longo. Nenhuma delas é mais ou menos homossexual por causa de um corte. O mesmo vale também para outros estigmas envolvendo a comunidade LGBTT, que padronizam qual tipo de profissão, modo de se vestir e maneira de agir essas pessoas “necessariamente seguem”.

Seguindo a mesma linha, uma mulher que se depila é tão feminista quanto aquela que prefere deixar os pelos crescerem. Inclusive, um dos pontos do feminismo é a crença de que a mulher pode fazer o que quiser com o próprio corpo e, pasmem!, isso inclui se depilar, não se depilar, usar vestidinhos, usar moletom, mostrar os mamilos, colocar sutiã, assumir os cachos, usar chapinha, transar no primeiro encontro, se guardar para um (a) namorado (a)… enfim, qualquer coisa que lhe der na telha.

Quando passamos para as questões socioeconômicas, encontramos ainda mais impasses, como o racismo. Tem negro pobre? Tem sim. Muito, infelizmente. Mas tem branco pobre. E tem negro presidente. Tem negro juiz, negro médico, negro jornalista, negro atleta, negro professor… Cor da pele não dita status social, muito menos caráter. Mas o jeito que você reage a isso dita sua ignorância.

O mesmo acontece com os regionalismos. Vamos lá, só uma vez: nem todo paulistano é sozinho, nem todo carioca é mal-educado, nem todo baiano é preguiçoso, nem todo gaúcho é gay, nem todo goiano ouve sertanejo, nem todo brasiliense é “corrupto”, nem todo mineiro come queijo, nem todo amazonense é índio.

Existem ainda diversos outros tipos de generalizações, assunto para outro post, mas a verdade é que isso prejudica todos os envolvidos nesses estereótipos, muitas vezes ligados à perpetuação de rótulos na mídia de massa, à formação cultural e ao tipo de educação que cada um recebeu.

As pessoas estão cada vez mais tendo que provar quem não são ao invés de poderem simplesmente ser. A personalidade de alguém não é influenciada apenas pela sua origem, seu gênero ou quantas tatuagens ela tem no corpo; é um conjunto de fatores muito maior e mais complexo que apenas a mente aberta permite que você enxergue. E já passou da hora de as pessoas abrirem a mente.

Um comentário sobre “Nem freira, nem puta

  1. manuelacostab disse:

    Maravilhoso o texto. Nele você diz que as pessoas têm hoje a necessidade constante de provar quem são, e isso é certeiro, mas acredito que acima de tudo estamos precisando provar quem não somos – que não somos lésbicas ou héteros, que não somos pobres ou mau caráter, que não somos machistas ou que não estamos praticando o feminismo de maneira errada, que não somos loucas e histéricas, e assim por diante.

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