O valor de uma mulher no poder

Por Isabela Graton

No dia 20 de agosto foi publicado no site da revista Época um texto, de autoria do jornalista João Luiz Vieira, intitulado “Dilma e o sexo”. Neste, o “expert” em sexualidade e jornalista experiente dá sua opinião sobre a “falta de erotização” da presidenta Dilma Rousseff, deixando claro que, na sua opinião, se ela demonstrasse mais traços femininos e expressasse sua sexualidade, a elite brasileira que foi às ruas protestar no dia 16 de Agosto não estaria tão revoltada com a situação econômica e política do país. O texto, que foi posteriormente removido do site devido à indignação de diversos leitores, extrapola os limites do ridículo e da falta de bom senso jornalístico ao analisar a vida pessoal de uma figura pública com trechos em que o autor questiona sobre a vida afetiva e sexual da presidenta como:

“Não a conheço pessoalmente, nem sei de ninguém que a viu nua, mas é bem provável que sua sexualidade tenha sido subtraída há pelo menos uma década. […] Será que Dilma devaneia, sente falta de alguém para preencher a solidão que o poder provoca em noites insones?”

Além disso, a compara com figuras públicas como Marta Suplicy, que costumava falar abertamente sobre sexo na mídia quando era ministra, e Jane Fonda, atriz norte americana e combatente política durante a Guerra do Vietnã, que, segundo Vieira, “exala erotismo mesmo aos 77 anos” para dar exemplos de como Dilma deveria se comportar para conseguir conquistar o povo brasileiro.

Assim, o jornalista constrói uma narrativa que escrutina a vida pessoal da presidenta e a julga pela sua falta de sensualidade expressando ideias claramente machistas ao ligar o valor de uma mulher com sua aparência. Percebe-se que, para João Luiz Vieira, é inconcebível a ideia de que uma mulher possa suceder em uma posição de poder sem “se erotizar”, pois, como escreve o autor, apenas criando “uma comunicação corporal que crie empatia” Dilma será uma governante amada pelo povo.

Essa não foi a primeira vez que a presidenta sofreu ataques misóginos, sendo eles constantes desde a sua posse em 2010. Um desses casos, no fim de Junho, foi a venda de adesivos para carros que, colados no tanque de gasolina, simulavam penetração sexual na presidenta na hora de abastecer. O ato causou revolta em diversas pessoas devido ao seu teor claramente misógino que expressava ódio à figura pública da presidenta por meio de uma imagem tão violenta e pejorativa. Percebe-se também que durante manifestações contra Dilma é predominante o uso de xingamentos machistas como “vaca”, “vagabunda” ou “vadia” ou até mesmo comentários de mau gosto sobre sua aparência.

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É verdade que o ódio a determinados políticos e a sua personificação sempre existiu, porém no caso de Dilma ele é reforçado devido ao preconceito de gênero e a ameaça que ela representa para o paradigma machista ao ocupar uma posição de poder. Assim, ao invés de ser criticada pelo seu modo de governar, como acontecia com seus antecessores, ela sofre ataques pessoais relacionados à sua aparência ou vida sexual.

Tudo isso apenas mostra que, no Brasil, não importa em que espaço a mulher esteja, ela não estará imune à misoginia enraizada na nossa sociedade patriarcal. Mesmo ocupando o mais alto cargo do executivo Dilma Rousseff ainda é criticada por homens como João Luiz Vieira, que acreditam que ela deve desempenhar seu papel com mais feminilidade, pois ainda possuem noções machistas do que uma mulher deve ser. Como primeira presidenta do Brasil, Dilma está em um espaço de poder nunca antes ocupado por uma mulher e portanto será sempre alvo de ataques misóginos tanto da mídia patriarcal quanto de cidadãos brasileiros, que preferem atacá-la pessoalmente ao invés de criticar suas decisões políticas.

Isso não demonstra apenas o quanto estamos longe de ser um país em que mulheres e homens são tratados com igualdade, mas reforça também a necessidade de termos mulheres ocupando posições de poder. Precisamos de mais mulheres na política e em cargos de importância dentro de empresas e instituições. Talvez assim possamos chegar a um ponto no futuro em que a análise da vida sexual de uma figura pública feminina não seja matéria de revista.

4 comentários sobre “O valor de uma mulher no poder

  1. Meia Lua Cheia ☾ disse:

    Por este motivo não participo de protestos, mesmo tendo consciência de que muitos “furos” existem no partido, Dilma me representa por ser mulher, por ter de enfrentar esse tipo de preconceito que as brasileiras enfrentam quase que diariamente. Em nenhum momento de mandatos assumidos por homens (que, aliás, tiveram governos piores que este) a sexualidade foi levada em conta. Mas Dilma é mulher, ela deve ser ligada de alguma forma á sexualidade e a erotização – lê-se esse trecho com muita indignação e ironia – Imagino o descontentamento e as medidas que não seriam tomadas, caso no governo de Collor houvessem protestos misândricos para justificar seu golpe. Na verdade isso é até difícil de se imaginar, Collor é homem.

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