A fábula social daquela ovelha desgarrada

Por Daniel Marques Vieira

Você deve se lembrar de ver no jornal há algumas semanas um pobre carneiro perdido que, fruto de anos sem cuidados, gerou dezenas de quilos de lã. O pobrezinho não podia nem caminhar direito. Era tanta pelugem que sequer suas necessidades mais básicas eram possíveis de serem satisfeitas. Um caso no mínimo curioso que despertou a reflexão de vários, como o colunista do Estado de São Paulo, Fernando Reinach, no texto “nós somos aquela ovelha (link)”. Ele escreveu:

“A cada geração selecionamos animais que produzem mais lã. A cada geração usamos somente esses animais como reprodutores. Esse processo, repetido por centenas de gerações, produziu esse animal aberrante, incapaz de trocar o próprio pelo ao longo das estações do ano. O resultado é uma ovelha que, se não for tosada regularmente, fica imunda, cega, incapaz de viver livre na natureza. Mas um animal ótimo para nós: um grande produtor de lã. […]

O que aconteceria com um ser humano médio se fosse largado no interior da Austrália como nossa ovelha? E o que aconteceria com a humanidade se as tecnologias desaparecessem? Imagine sua vida sem agricultura, animais domesticados, fogo, eletricidade, medicina, dinheiro e internet. Provavelmente, grande parte da população morreria em dois ou três meses.”

Reinach dá a fagulha inicial de uma discussão profunda e importante, porém, como cientista, sua análise acaba se direcionando para o lado da evolução e da sobrevivência biológica. Porém, o ponto chave da discussão pode ser aproveitado por nós: como a tecnologia substitui ou mascara aspectos de nossas vidas de modo que nos tornamos impotentes sem ela.

Entenda-se tecnologia como um termo amplo, como nos exemplos da citação acima. O fato é: o que a princípio é visto como ferramenta de otimização acaba por aos poucos adentrar em nossas vidas de tal modo que nossa forma de pensar é moldada de acordo com elas. As tecnologias adequam a sociedade. Dois fatores principais parecem delinear nosso modo de pensar: o excesso de informações e o excesso de conexões. Temos um mundo de excessos que criam pessoas excessivamente aceleradas para que possam acompanhar as tecnologias.

Adorno dizia que agora o valor do homem é medido pela sua quantidade de produção. Somos predispostos à total produtividade ao ponto de ter o ritmo moderno impregnado em nossos cérebros. Não conseguimos ficar parados sem receber ou produzir estímulos sem que grande impaciência e desconforto venham juntos. Hoje estamos tão conectados que não conseguimos pensar ações e sequer emoções fora das relações interpessoais. Temos tanta informação vinda de fora que somos acostumados a chutar para escanteio as informações vindas de dentro. Nos acostumamos tanto a entretenimento e beleza em pequenas e rápidas doses que as atividades mais demoradas e reflexivas se tornaram tortura.

Perdemos o prazer das longas caminhadas. Perdemos a beleza de observar o céu. Na rede nos achamos deuses irrepreensíveis de tal modo que não conseguimos ver a possibilidade do próprio erro.  Somos incapazes de parar, quem dirá parar para pensar. A socialização online é tão fácil que perdemos a capacidade da real socialização dentro de todas suas dificuldades e pressões. Hoje o “cardápio” social é tão grande que desaprendemos os sentimentos e relações duradouras de uma amizade realmente próxima.

Não que o mundo tecnológico seja de todo ou essencialmente ruim, mas basta observar as pessoas com cuidado para perceber que ao aprender a lidar com o “novo mundo digital” desaprendemos a lidar com o mundo físico. Todos estamos nos tornando anti-sociais, egoístas e extremamente vulneráveis (basta notar como as pessoas hoje reagem a pressões sociais negativas, dificilmente sabendo resistir a elas ou dribla-las), o que é notoriamente gravíssimo. E claro, em certo prazo, estamos nos tornando infelizes por sermos incapazes de absorver as alegrias e belezas duradouras do mundo. Sim, somos aquela ovelha, mas, diferente dela, não temos sequer um pequeno vislumbre da tosa.

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