O cinismo europeu e a internet

Por Rafz Tzu

No dia vinte e quatro de Abril Fatou Diome, escritora senegalesa radicada na França, foi convidada a participar de um debate no programa “se soir (ou jamais!)” do canal “France 2”. Ocasião na qual acabou por, literalmente, deixar uma lição sobre política migratória e direitos humanos ao responder o historiador e jurista Thierry Baudet.

Em uma de suas réplicas, a escritora ressaltou a evidente e contraditória seleção migratória feita pela Europa “Quando eles consideram meu cérebro adequado, eles o utilizam. Por outro lado, eles ficam revoltosos com a ideia de ter meu irmão, que não tem diplomas como eu, e que pode querer trabalhar na construção civil. Portanto seus países estão ficando esquizofrênicos. Vocês não podem dividir as pessoas desse jeito, em estrangeiros úteis e maus estrangeiros”, disse por detrás de uma legenda pouco disfarçada sobreposta na tela:  “acolher ou não a miséria do mundo?”. O vídeo  com a entrevista, postada inicialmente no Facebook, tem milhões de visualizações e outras toneladas de comentários.

Nas redes, imagens de Pietra Laszlo, operadora de câmera húngara, também fizeram bastante barulho. Laszlo foi filmada em diversos ângulos passando rasteira em um imigrante que carregava uma criança. A moça tinha o objetivo de detê-los ao tentarem atravessar a fronteira da Hungria. As imagens causaram revolta em todo o mundo e a demissão da repórter, que afirmou em carta publicada no jornal Magyar Nemzet, ter entrado em pânico e não se reconhecer naquele momento.

Se não houvessem redes sociais e a internet, certamente estes casos não teriam repercutido. Não haveriam notas de repúdio à postura da cinegrafista em todo o mundo, talvez em jornais europeus. A revolta provocada pela rasteira de Laszo não teria voz e se tivesse, não soaria retumbante. A bela e pertinente fala de Diome , não seria difícil deduzir o porquê, não teria sido vista por aqueles que representa.

A notícia estava limitada aos grandes veículos e o direito de informar estava nas mãos de poucos. A ética de trabalho era limitada geograficamente, pela cultura local e algumas vezes pela cultura do veículo. Contudo, em tempos de redes sociais, todos podem se informar e todos podem informar. Os olhos, ouvidos e bocas da internet são atentos e funcionais. Hoje faz-se mais que ler uma notícia, faz-se parte dela analisando dados em tempo real e coletivamente.

Não se pode mais descrever uma crise migratória de maneira xenófoba e esperar que o público apenas veja e concorde, não é mais possível prever quem será o público. Não se pode mais dar tropicões em imigrantes e esperar que ninguém veja. A internet elevou a sociedade e a ética ao status global, onde todos são fiscais. Há câmeras por todos os lados, o jornalismo há que pensar nesta nova realidade por que hoje “tá todo mundo vendo, amigue” ou, nas palavras de Diome “ vivemos em uma sociedade globalizada”.

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