Mas isso existe mesmo ou é ficção?

Por Danielle Assis

Para muitos espectadores brasileiros, a crítica do quarto longa de Anna Muylaert, “Que horas ela volta?”, passou despercebida. O filme, indicado pelo Ministério da Cultura para representar o país no Oscar 2016, é sutilmente fiel à realidade do país, trabalhado sob uma tênue linha entre o engajamento social e o humor. Tanto que, caso desatentas, as classes média e alta se deixam levar pela simplicidade e bom-humor da personagem Val, interpretada competentemente pela Regina Casé, e sequer percebem a violência simbólica que ela sofre todo dia.

Val é uma mulher que deixa a filha no interior de Pernambuco para ganhar a vida na monstruosa capital paulista, trabalhando como doméstica para uma família no Morumbi. Lá, ela cozinha, limpa a casa, lava as roupas, faz jardinagem, cuida do filho dos patrões e mora na casa numa espécie de servidão, acordando mais cedo e dormindo mais tarde que seus chefes. Val é reflexo da desigualdade social e herdeira do sistema escravista, uma vez que se dedica ao serviço quase que integralmente, convencida de que não possui uma alternativa às exaustivas cargas horárias, ao salário medíocre e ao tratamento condescendente e desdenhoso que recebe dos proprietários da residência. Nada chocante à famosa família tradicional brasileira.

A qualidade de vida da personagem é baixa ao nível de espectadores estrangeiros perguntarem à diretora da película se esse tipo de relação realmente existe no Brasil. Estreado em 22 países, elogiado pelos jornais NY Times, Le Figaro, El Pais e The Guardian e ganhador de prêmios no Festival de Berlim, na Alemanha, e de Sundance, nos EUA, o filme conquistou grande repercussão internacional ao mostrar essa faceta do trabalho abusivo que aqui existe. O Brasil, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), é o país com o maior número de empregados domésticos no mundo, sendo 83% mulheres. É chocante para os gringos, mas existem cerca de 7 milhões de Vals enfrentando essa situação cotidianamente.

A maioria das mulheres inseridas nesse contexto aceita tal lógica de submissão muitas vezes porque tem enraizado em si que esse é o único caminho possível para mulheres como elas. Pobres e desqualificadas profissionalmente, elas acreditam que estão de algum modo condenadas a esse tipo de serviço; que existem os ricos e os pobres e a mobilidade social é inatingível, então o que há para fazer é simplesmente aceitar, tal qual um escravo que já nasce cativo. Como a própria Val diz no filme, “tem coisa que a gente nasce sabendo”. Obedecer a patroa de boca calada, não comer do mesmo sorvete da família, não entrar na piscina, não sentar na mesma mesa que os chefes, não se perfumar para sair, não ter conforto no próprio quarto, não poder matricular a filha numa universidade pública, contentar-se com o injusto. E a dignidade, que horas ela volta?

Confira o trailer do filme

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