SHE FOR HE – Ela por ele

Por Aghata Gontijo

No dia 29 de Setembro sai na Vogue UK uma entrevista com Emma Watson onde a atriz fala sobre sexismo em Holywood. A entrevista chama atenção mais uma vez para a questão acerca de qual é realmente o papel do homem no feminismo.

Assim como a jovem atriz disse em seu discurso para a ONU, o movimento feminista precisa dos homens, até porque, como seria possível mudar uma sociedade onde a mulher representa um papel subjugado sem que em algum momento o expoente que subjuga cesse de fazê-lo?

Mas permitir e apelar para que os homens apoiem o movimento não significa nada mais do que pedir para que eles reconheçam sua posição privilegiada como tal e que abram mão de suas regalias. Não significa, porém, escolher os indivíduos que optam por cooperar com essa ideia e elegê-los como entidades sacras de benevolência como se ao reconhecer seus privilégios os mesmos deixassem de existir.

Esse é o problema com a fala de Watson para a revista Vogue UK. Quando diz que um dos melhores feministas que já conheceu é um homem e segue culpando as mulheres pela manutenção do comportamento machista na indústria, Watson desloca a estrutura do problema. Coloca um homem simbolizando a oposição ao status quo e as mulheres que, por condição são o sujeito de oposição, como mantenedoras do mesmo.

Outra atriz que polemizou um pouco com suas declarações acerca do feminismo foi Meryl Streep. Ela interpreta Emmeline Pankhurst personagem do filme Suffragettes, sobre o movimento sufragista no inicio do século passado e em entrevista para a revista Time Out London declarou não ser feminista, mas sim humanista.

O termo humanista parece diferir na prática do conhecido humanismo – filosofia que coloca o ser humano como elemento principal do universo – mas representa, no contexto, a crença na igualdade entre os seres humanos, e vem sendo usado para defender a posição de que se deve lutar para que tal igualdade se realize.

Para além de questões especistas, o termo soa muito como uma onda que inundou as redes sociais aqui no Brasil, o Deboísmo, que se refere a uma suposta corrente filosófica que tem como mandamento básico ficar “de boa”, ou seja, viver em harmonia e de forma pacifica com todos.

O Deboísmo, como se sabe, não passa de uma brincadeira, mais um viral da internet, mas a ‘corrente humanista’ por outro lado, agrega cada vez mais sujeitos que partilham de suas ideias.

Qual seria o problema de Streep se declarar humanista? Para a atriz, acredito que nenhum problema, mas para as militâncias de grupos sistematicamente oprimidos, o uso desse termo pode carregar algumas consequências.

Quando Streep é questionada se é feminista e responde que é humanista e acredita em “balanço” entre as partes, a primeira coisa que deixa a entender é que lê o feminismo como movimento que objetiva a algo além da equidade do tratamento de gênero. É o que se dá com algumas pessoas que acreditam que o feminismo procura instalar uma “ditadura feminista” onde as mulheres sairão da posição de oprimido para a de opressor em relação aos homens.

É possível, em uma leitura rápida no material disponibilizado sobre o assunto, entender que tais ideias não têm embasamento teórico ou prático e nem mesmo fundamentos históricos que comprovem ser essa a força motriz da manifestação e proliferação das ideias feministas.

Por que, então, essas declarações são tão importantes?

Essas falas parecem indicar um fenômeno que é cada vez mais expressivo nos espaços de manifestação livre, como as redes sociais. São discursos que assumem uma roupagem de feminismo – e no caso de Streep, humanista – cada vez mais solícito para com o outro elemento – considerando que ambas são mulheres – o homem.

Watson, como face da campanha HE FOR SHE (ELE POR ELA) parece ter como preocupação principal garantir que a parte HE (ELE) não se sinta agredida de alguma forma pela sua posição. Quase como se barganhasse com os homens pelo seu apoio, oferecendo em troca uma posição protagonista no movimento.

Streep por sua vez se coloca por trás da posição humanista, termo que soa ainda mais genérico e brando em comparação ao papel que ela estrela em um filme que sublinha, justamente, a importância da posição ativa, forte e por vezes agressiva para alcançar níveis equiparados de direitos com os homens.

Isso não é novo. Na verdade por toda a história é esperado das mulheres que não assumam tais posturas, que não briguem, não façam barulho, não apontem privilégios, não revoguem espaços de fala. Resta, agora, saber identificar tal coação em discursos cada vez mais simpáticos, acima de qualquer problematização, afinal, quem não é a favor da humanidade? Quem não quer dar as mãos e simplesmente fechar os olhos?

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