O que as animações têm a dizer?

Por Ana Cláudia Gonçalves

As animações representam uma grande parte do entretenimento voltado para crianças e não se pode ignorar a influência que tiveram na formação das mais diversas gerações desde seu surgimento.  Assim como a escola e a família, os desenhos animados passaram a fazer parte da formação de uma grande parcela das crianças no Brasil e no mundo, influenciando em seus pensamentos, comportamentos e construção de valores. Por isso, é fundamental discutir sobre as mensagens passadas por esses desenhos, afinal elas influenciarão na formação de toda uma geração de adultos.

Porém, nem todo mundo interpreta essas mensagens ou mesmo se preocupa com a influência que elas podem ter sobre o público infantil. As primeiras animações feitas, principalmente as da Disney, passam valores e mensagens que podem ser problemáticos se analisadas mais profundamente.

Apesar de simples e, à primeira vista inofensivos, os primeiros desenhos e longa metragens reforçavam valores como a heterossexualidade normativa, padrões estéticos e de gênero, o que contribuía para que muitas crianças crescessem com problemas de identificação caso não se enquadrassem nessas características, ou que tivessem dificuldade em aceitar pessoas que estivessem fora desses padrões.

Os longas das princesas mais clássicas da Disney são um bom exemplo de animações que passavam esse tipo de mensagem. Em Branca de Neve, Bela Adormecida e Cinderela, as protagonistas, apesar de mulheres, são representadas como passivas e dependentes da ação de um homem, no caso o príncipe encantado, para serem salvas e capazes de alcançar a felicidade. O tão sonhado final feliz só vem depois do casamento e com um preço: ser branca, magra e dócil.

Mesmo nas animações do início da década de 90, tidas muitas vezes como ícones de uma representação feminina mais positiva, como os longas-metragens Pocahontas e Mulan, ainda há um grande foco na necessidade de um par romântico. No final, ainda parecia ser necessário um romance hétero para que o tão aclamado final feliz estivesse completo. Não bastava simplesmente impedir uma guerra entre índios e colonos ou mesmo salvar a China.

Contudo, atualmente, a animação tem se preocupado mais com preencher seus roteiros com mensagens, mesmo que indiretas, de aceitação e empoderamento social de minorias. A tendência agora são as histórias mais elaboradas e com personagens que nem sempre correspondem aos ideais românticos que tema os de um (a) herói (na).

Filmes como Valente, Malévola e Frozen, por exemplo, apresentam uma abordagem diferente das relações femininas abordadas anteriormente. A competição entre mulheres, a figura de uma madrasta má e bruxas malvadas deram lugar a necessidade de uma relação saudável entre mãe e filha em Valente, a relativização da figura da bruxa Malévola e sua redenção encontrada no amor pela princesa Aurora e o amor verdadeiro entre duas irmãs e sua importância mostrado em Frozen. Em todas essas animações, a sororidade e sua importância ultrapassam o mito da necessidade do amor de um príncipe para a felicidade feminina.

Além disso, os desenhos animados Steven Universo e Hotel Transilvânia 1 e 2 relativizavam o conceito de casal “normal” tido pela sociedade. Em Steven Universo, o protagonista é um menino que convive com extraterrestres chamadas Crystal Gems e que vem de um planeta onde só há mulheres, o que faz com que os pares românticos formados sejam majoritariamente de mulheres. Já Hotel Transilvânia trata justamente da aceitação social do relacionamento da vampira Mavis, filha do Conde Drácula, e o humano Jonathan.

Entretanto, as animações ainda deixam muito a desejar em temos de representatividade. Há pouquíssimas princesas que não são brancas e ainda não há nenhuma que não seja magra. Quando se fala então de personagens com deficiências físicas, a situação é ainda pior. Mas ainda assim, é preciso reconhecer os avanços que houveram nas mensagens passadas pelos desenhos animados. É necessário continuar avançando nessas questões para minar o preconceito e os discursos de ódio tão presentes na sociedade de hoje.

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