A caça às bruxas nossa de cada dia

Por Letícia Leal

Na manhã do dia 9 de outubro, o portal de notícias online Diário da Manhã publicou uma matéria cujo título chamou minha atenção. Como estudante de Comunicação Social, filha tardia da geração y e mulher feminista, procuro sempre acompanhar o maior número possível de páginas dos mais variados tipos de veículos de informação — grandes, médios e os chamados free content media, ou simplesmente media livre –, sempre com uma visão crítica do ponto de vista deontológico.

A manchete a que me refiro anuncia: “Prostituta mata cliente que propôs sexo com um bebê”, logo acima do seguinte sutiã (o subtítulo das matérias jornalísticas): “A mulher ainda desfigurou o rosto da vítima”. Temos então uma fotografia bastante curiosa, sem créditos. É a silhueta de uma mulher loira, de corpo torneado e vestido vermelho curto, fumando um cigarro encostada em um poste. Ela usa sandálias de salto alto pretas e parece ter saído de um clipe da Jessica Rabbit. A definição do femme fatale. É uma foto meramente ilustrativa que perpetua preconceitos condizentes com tudo que rodeia a matéria que está por vir.

O chamado lide, que é o parágrafo inicial desse tipo de texto, assim se apresenta: “Uma prostituta, de 23 anos, da região de Pouso Alegre, ao sul de Minas Gerais, matou o cliente após ele pedir para fazer sexo com ela, a irmã de 21 anos e a sobrinha de 1 ano e 9 meses”. Abaixo, nos deparamos com a foto 3×4 da identidade dele, em que se encontra elegantemente vestido de gravata e camisa social, seguida da legenda: “Vicente de Souza tinha 49 anos e trabalhava em uma marmoraria”. E ainda: “Após a moça se recusar a atender o pedido do homem, os dois tiveram uma briga e Vicente de Souza, 49 anos, ficou desacordado. A prostituta entrou na boate onde trabalhava, buscou um facão e atingiu a cabeça e o rosto da vítima com vários golpes”. A essa altura, estou mais do que apenas confusa. O sujeito da ação, e isso fica muito claro na chamada, é a prostituta. Ela que permaneceu, no decorrer do texto, inominada, foi quem deu valor-notícia ao fato. O homicídio executado por ela é o que está sendo apontado aqui, indubitavelmente, porque a proposta de ESTUPRO feita pelo PEDÓFILO (me dei aqui a licença poética de usar alguns termos técnicos que a redação do Diário da Manhã ignorou completamente) não é uma aberração.

Tudo nessa matéria aponta para isso: foi apenas um pedido, um pedido de um homem trabalhador, adulto, que a “moça” recusou. Ele, um homem. Vicente de Souza, nome e sobrenome, 49 anos, trabalhador em marmoraria. Ela, uma “moça”. Prostituta em cidade tal, 23 anos. E mesmo com a relação de poder claramente estabelecida, nós, como leitores, temos nossa inteligência repetidamente desafiada: “[…]os dois tiveram uma briga e Vicente de Souza, 49 anos, ficou desacordado”. O que significa os dois terem uma briga? A briga saiu debaixo do lençol da cama e o cara caiu desmaiado? Como exatamente isso ocorreu? Onde? Quem começou a briga? Como ele acabou desacordado? Ou também aqui: “[…]atingiu a cabeça e o rosto da vítima com vários golpes”, como se o rosto não ficasse na cabeça, como se isso fosse o mais relevante do que está sendo relatado. Do nada, a mulher, essa moça louca, prostituta, sádica, vai à boate e tem um surto de violência gratuita. Muito que bom, nada de novo sob o Sol.

Ao final, temos o depoimento da irmã, que diz que ao chegar ao que eu suponho que seja a porta da boate (por causa da foto do sangue no chão logo acima, já que não há indício no texto), que se deparou com os dois se atracando e conseguiu apartar a confusão. Mas e o desmaio do Vicente, não teve a ver com ela, que num momento de desespero, pode o ter atingido na cabeça para ajudar a irmã? Fica em aberto para eu, você, e quem mais quiser, imaginarmos, porque nada disso foi apurado ou esclarecido.

O engraçado é que, sendo essa ratinha de internet que sou, li faz bem pouco tempo um texto que tratava de um assunto parecido no portal Pragmatismo Político. Portal esse que traz em seu site os dizeres: “Somente a cidadania plena conduz à democracia. Não há outra forma de ser cidadão que não seja através da educação ideológica e política”, e que tem um arquivo de 47 páginas de publicações apontando coberturas malfeitas (que pode ser acessado pela tag “mídia desonesta”) A chamada: “Policial pede para ter relação sexual com filhas da amante como ‘prova de amor’”. Ué, Pragmatismo, como assim “relação sexual”? Ao que parece, o jornalismo está devidamente medicado contra os termos pedofilia e estupro, a menos que esse último venha acompanhado de um “suposto”. Por que a mulher nunca merece o benefício da dúvida?

No caso dessa última matéria mencionada, houve uma enxurrada de comentários crucificando a mãe por ter tentando dissuadir o pedófilo de maneira considerada muito branda. É mais um exemplo de profunda falta de empatia e negação dos prejuízos causados por uma socialização feminina de dependência emocional e baixa autoestima. É falta de coragem de encarar esses problemas de forma estrutural, e não pontual. Mais do que tudo, é a prova de que a desinformação e a perpetuação de preconceitos se dão de forma retroalimentativa na relação dialética público-imprensa, em que um justifica o outro, e toda a sociedade sai perdendo.

O ano é 2015. As fogueiras continuam queimando.

Link para a matéria

Um comentário sobre “A caça às bruxas nossa de cada dia

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s