Quando ENEM não fala o que querem

Por Ana Cláudia Gonçalves

Este texto não será imparcial como manda o sagrado código do jornalismo. E, pasmem, será escrito em 1ª pessoa. Não posso falar de uma experiência pessoal através de uma visão imparcial e inclusive me recuso. Hoje, eu quero falar sobre ENEM.

No último final de semana eu estava trabalhando como aplicadora do ENEM 2015, simplesmente a maior prova que dá acesso a universidades do Brasil. A magnitude do ENEM assusta. Assusta quem faz, quem aplica, a todos, mas esse ano o que assustou muita gente foi o tema da redação e uma questão que citava uma teórica feminista.

“A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”. Esse foi o tema que causou a minha máxima alegria e a revolta de muitos outros. Os dados, os infográficos a foto dizendo “Feminicídio Basta! ”, tudo isso fez com que estar ali naquele final de semana sem almoçar estivesse valendo a pena. E, sim, estava sem almoçar, pois o Cebraspe não reserva horário para almoço para chefes de sala ou aplicadores, não disponibiliza almoço ou comida para ser comprada e nem avisa que se não levarmos nossa própria comida teremos como única refeição o lanche oferecido pelo órgão para ficar no local de 9 da manhã até as 6:30 da tarde. Mas isso é assunto para outro post.

Quando cheguei em casa, mal podia acreditar que um tema tão necessário estava finalmente sendo colocado em uma prova dessas. Chega a ser difícil crer que algum dia um tema assim seria tão amplamente discutido quando o termo “feminicídio” ainda é marcado como um erro ortográfico quando escrito em um documento do Word.

Os deputados Marco Feliciano e Jair Bolsonaro, foram alguns dos primeiros a reclamarem da prova do ENEM. Declararam que a questão que citava a escritora feminista Simone de Beauvoir era uma forma de doutrinação.  O que me surpreende nessa crítica foi que quando fui obrigada a estudar diversos outros autores como Hobbes, Nietzsche e Adam Smith ninguém acusou meus professores ou as provas de vestibular que fiz de doutrinação ao citarem frases desses autores. E nem é preciso dizer que durante esses estudos pouquíssimas mulheres cruzaram meu caminho.

Depois das declarações dadas pelos deputados, foi a vez de vários candidatos se manifestarem nas redes sociais contra o tema da prova.

ENEM 1 ENEM 2 ENEM 3

Eu só posso dizer que fico feliz que esse tipo de gente não vai entrar na mesma universidade que eu e se quiserem me xingar por isso, sinceramente eu não me importo. O que eu não quero mais é que ainda existam tantos relatos de amigas, conhecidas ou mesmo desconhecidas que sofreram algum tipo de assédio, que foram violentadas, que foram humilhadas ou tiveram menos oportunidades pelo simples fato de serem mulheres.

Essa redação foi extremamente importante nessa luta. A violência contra a mulher é algo diário e notório e só o fato de se estar discutindo sobre isso por conta dessa prova já é uma vitória. Apesar de existirem leis como a Lei Maria da Penha, muitas delas não saem do papel, porque muitas das denúncias também não saem das bocas das mulheres oprimidas, desencorajadas todos os dias a fazerem isso.

Contudo, o principal problema de toda essa polêmica, pelo menos do meu ponto de vista, é que as pessoas que argumentaram contra a escolha do tema ou a citação de uma feminista na prova não conseguem passar a mensagem que querem na redação por um simples detalhe: ser a favor de qualquer modo de violência contra alguém ou perpetuar esse comportamento vai contra os direitos humanos e, por tanto, contra o próprio edital do ENEM. Se um argumento não consegue ser colocado sem ferir os direitos humanos, há algo de errado com ele.

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