Democracia de hipocrisia

Por Felipe de Oliveira e Marcelo Cardoso

Imagem: André Dahmer

O posicionamento e a convicção em valores e ideologias próprias pode por vezes ser confundido com o extremismo cego, que em nada favorece o debate democrático. Confundido não por agentes externos, mas pela própria pessoa, grupo ou instituição que ao se agarrar fielmente a sua doutrina, passa a tachar de loucura e devaneios toda e qualquer manifestação contrária que represente divergência de pensamento em relação ao seu próprio.

Há muito que o debate político deu lugar ao mais mesquinho confronto entre torcidas rivais, onde A é melhor que B porque A é melhor que B. E como em um debate sobre futebol, é na intolerância baseada em fantasias mal construídas que reside o problema. Para dar autonomia e afirmar a teoria usa-se de tudo. É valida qualquer aplicação, contanto que ela favoreça o posicionamento pessoal e pulverize até o mais racional discurso. Simplesmente por ser do outro, do oposto. E adivinhem quem sofre as distorções de tal radicalismo? Ora, não outra que senão a tão proclamada democracia. Bradada do Oiapoque ao Chuí é ela que muitas vezes é renegada e tapada pela insensatez de um discurso de ódio.

Em seus comentários para a rádio BandNews FM, o jornalista vencedor de três prêmios Esso, Ricardo Boechat, tem chamado a atenção de forma recorrente para o fato de que “há uma tendência natural para que as pessoas endossem aquilo que elas querem que você fale.” A concordância ou rejeição resume-se ao compartilhamento de ideias afins, de ideologia semelhante. Falar-se-á bem ou mal de alguém que admiro e te direis quem és.

Pense um pouco: por que considero que alguns veículos de imprensa são manipuladores e goulashs? “Porque é parcial, porque persegue alguns em detrimento a outros de forma exagerada”, responderás imediatamente com o peito estufado de orgulho e razão. Não tiro-lhe a razão, mas em um mundo espelhado, onde a lógica é invertida, tais reclamações persistiriam? Obviamente que sim, porém do lado oposto do muro.

Faça-se a ressalva: não nomeie um debate de debate democrático se a sua visão de democracia se limita a posicionamentos fanáticos e intolerantes. É a partir daí que a democracia outrora pautada na pluralidade de opiniões se transforma em qualquer coisa. O respeito deixa de existir e passam a fazer do círculo de relacionamentos apenas aqueles que se somam a mim na euforia extremista.

Não é de se impressionar que tais eventos evidenciem de forma clara como o sol de verão a validade da espiral do silêncio de Noelle-Neumann.

Por isso, diante do atual cenário nacional, questione-se, examine-se e veja se a hipocrisia já não tomou conta do discurso que muitas vezes você julga como a verdade absoluta. Construa pensamentos coerentes, defenda-os com todo o vigor que a liberdade de expressão te dá, mas não permita que você seja apenas mais uma peça movida em um jogo de tabuleiro.

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