Cultura do estupro: sociedade machista, mídia conivente

Por Isabela Graton

Hoje, olhei para a tela do computador e chorei. Chorei por mim, pela minha mãe, pelas minhas irmãs, pelas minhas amigas e por todas as mulheres do mundo, porque, mais uma vez, tive que ler notícia nas redes sociais sobre um caso de estupro. Tive que ler a história de outra vítima, outra mulher – que poderia ser eu ou qualquer outra de nós.

Digo “mais uma vez” porque sabemos a frequência com que esse tipo de notícia aparece. Em diversos países, são recorrentes manchetes  sobre crimes sexuais contra mulheres. Dessa vez, foi estupro coletivo, ocorrido na periferia do Rio de Janeiro e veio à tona devido à exposição nas redes sociais efetuada pelos algozes.

Por enquanto, tem sido noticiado principalmente nas redes sociais e nas páginas de coletivos feministas. Viralizou, sobretudo, no Twitter, no qual tem fomentado chuva de comentários machistas e misóginos por parte de homens que culpabilizam e julgam a vítima.

No entanto, nada muito diferente do que acontece na cobertura midiática de casos de estupro feita por grandes veículos. Costumam noticiar de modo a justificar ou amenizar a agressão – manchetes relatam “suposto estupro”. por exemplo -, buscando motivo para ter ocorrido. Noutras vezes, são tratados como casos isolados cometidos por homens “loucos” ou “doentes”. Percebe-se, então, uma tentativa de justificar tais atos horrendos ou transformá-los em “exceções”, além de retratar agressores como monstros, vide denominações como “o maníaco do parque” ou “o maníaco da bicicleta” que ocorrem  frequentemente.

Esse tipo de cobertura só prejudica vítimas e transforma estupradores em “bichos papões” que devem ser temidos, ignorando estatísticas que mostram que a maioria dos agressores é conhecida por elas. É possível notar o quanto a mídia é machista e misógina quando tenta achar possíveis razões para justificar não apenas estupros, mas também casos de violências domésticas ou de qualquer outra agressão contra a mulher.

Uma mulher foi drogada, estuprada e violentada por 30 homens. Sofreu um estupro coletivo, agressão inimaginável para a maioria de nós, e terá sequelas físicas e emocionais pelo resto da vida caso sobreviva. Ela está sendo amplamente divulgada nas redes sociais e se tornará manchete nos principais jornais e portais de notícias. Neles, infelizmente, serão analisados os “motivos” pelos quais o ato teria sido cometido e se questionarão todas as ações da vítima – como se ela tivesse culpa, o que não é verdade. Muitos argumentarão que seus algozes eram “loucos” ou “monstros” ou que “homens de verdade” não cometem crimes do tipo ignorando, mais uma vez, estatísticas sobre estupros e o fato de ser um crime recorrente.

estupros

Pouco será dito sobre a cultura de estupro em que vivemos, pouco será comentado sobre o fato de 30 homens se sentirem no direito de fazer o que bem entendem com o corpo de uma mulher e, depois, divulgarem o crime para se vangloriarem dele, pouco será discutido sobre a opressão que temos que enfrentar todos os dias.

E, amanhã, teremos que ler outra notícia sobre como uma mulher apanhou, pois “o marido sentia ciúmes demais” ou como uma menina foi estuprada, porque “foi a uma festa e bebeu muito”. Outra vez, veremos machismo estampado nas capas dos meios de comunicação.

Machismo é cruel, mata e violenta a cada dia. Nada mais simples do que analisar a cobertura midiática sobre atos de violência de gênero para perceber como estamos inseridos na lógica da cultura do estupro, fruto de uma sociedade extremamente misógina e patriarcal.

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