Fonte: Facebook - Página barroca, inovadora, vanguardista

Show de notícia

Por Marília Nestor

Imagem: Facebook – Página barroca, inovadora, vanguardista

Estou aqui para falar do caso de estupro do Rio. Estou aqui para falar sobre o decote da Adriana Bombom. Estou aqui para falar sobre Suzane Richtofen. Estou aqui para falar da festa do MC Gui. O que essas histórias têm em comum? Não muito em conteúdo, mas elas têm uma característica especial se falarmos de mídia. É algo que eu chamo de ’Show de notícia’.

A mídia não deixa de ser uma indústria se formos falar de conteúdo. O jornalismo muito menos. Diplomadas ou não, muitas pessoas precisam ir além do seu trabalho e fazer seu ganha pão todos os dias. Qual o problema nisso? Havendo responsabilidade, nenhum. Isso pode ser até bom, mas as coisas também podem passar dos limites…

Existe um lado positivo em crimes de grande repercussão: uma das maiores armas contra a impunidade. Graças a isso, trocamos de delegado para delegada no caso do Rio e os culpados estão finalmente aparecendo e sofrendo as consequências. Dá até alívio pensar que os estupradores não vão sair sorrindo da delegacia novamente. O triste é a existência desse alívio, né? É o mesmo alívio que nos dá a Lava Jato: saber que quem cometeu crime vai ser culpado e pagar por isso. Realmente faz a diferença em um país em que ainda é senso comum acreditar na impunidade (falo de assaltantes, banqueiros, empresários, estupradores, traficantes, políticos…).

Apesar da repercussão nem sempre funcionar, como acontece nos caso Champinho, tragédia em Mariana ou do jovem Victor Hugo Deppman, morto por um rapaz de 17 anos e 11 meses, a arma ainda é forte. Contudo, vamos olhar para esta manchete do Estadão: “Aos 14, vítima de estupro coletivo foi apreendida por postar fotos com armas”. Isso pode até ser o que ‘o povo quer ler’, mas até que ponto é pertinente para o caso? Temos um ser humano sofrendo os efeitos da repercussão, que foi atrás de um traficante para recuperar o celular, a única coisa que daria para recuperar, que precisou sair de casa e entrar no programa de proteção, tendo sua legitimidade como vítima questionada para alimentar um show macabro da vida real. É bem triste que o jornal dê tanto volume para uma informação assim.

Dentro do mesmo palco, coloco Suzane Richtofen. Devido à repercussão foi presa. Passou um tempo fora da mídia até começar o show: voltou aos holofotes ao se casar com outra presidiária, ex de Elize Matsunaga. Por que sei disso? Também me questiono. Questiono ainda saber do decote de Adriana Bombom na festa do MC Gui ou de como está Geisy Arruda que, aliás, ficava melhor com o cabelo platinado. Show de notícia.

Às vezes parece que tanto o jornalista quanto espectadores saem do real e entram em um filme, esquecem do ser humano e veem personagens. Pode parecer brincadeira, mas já vi o termo ‘presunto’ para se referir a um corpo sem vida usado como vocabulário comum em algumas redações, e não programas policiais que se fingem de jornalismo, falo de jornais sérios, onde existe uma preocupação com o que é divulgado.

A única solução que tenho é a mesma que se tem para todas as empresas: parar de consumir o produto. O dinheiro de qualquer empresa é você. Do mesmo jeito que se combate o trabalho escravo ou a tortura a animais: parando de comprar de empresas que usam isso. Como saber? Do mesmo jeito: se informando. É muito simples ser expectador e expectador nisso tudo, mas tome cuidado! Está muito engraçado quando é com outros, mas creia: ninguém está imune ao Show de Notícia. A mãe da Isabella Nardoni que o diga.


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