Entrevista de emprego

Por Priscilla Rodrigues

Após a entrega de diversos currículos, eis que chega o momento tão esperado. Fui chamado. A primeira oportunidade que não exigia um turbilhão de coisas. Era meu primeiro estágio e não fazia ideia de como me portar. Na verdade sabia tudo o que não fazer.
Não liste perfeccionismo como defeito, não seja prepotente, não se faça de coitado, não implore pelo trabalho. Não, não e não.

Foi uma tensão! Havia estudado toda a história do veículo, me atualizei nas informações sobre política e economia, pesquisei sobre meu futuro chefe e me preocupei com a roupa. Peguei o ônibus, mal olhei para o cobrador, apontei o cartão para o leitor e passei pela catraca com os olhos na tela do celular.

Só conseguia pensar no quanto aquilo seria bom pra mim. Queria tanto ser jornalista que nem me preocupava com as horas a mais na redação, ou com o salario desproporcional. Tomei um banho de água fria já no primeiro semestre da faculdade, mas sabia que havia nascido para isso. Minhas mãos, tremulas e frias mal aparavam o celular, minha cabeça estava à mil, não estava apaixonado, mas senti um frio imenso na barriga. Aquela era a minha chance de mostrar tudo o que estava aprendendo.

À medida que o ônibus esvaziava, o coração apertava ainda mais. Pronto! Meu ponto chegou! Escondi o celular e desci do ônibus. Na verdade, nada poderia ser melhor do que estar confiante. Então reuni as coisas mais importantes e boas que haviam acontecido comigo a fim de me tranquilizar. Mais um “não”, de forma alguma, me derrubaria daquele pedestal no qual me coloquei. Mas será que o excesso de confiança não seria a tal prepotência? Agora o medo voltara.

Enquanto caminhava em direção à empresa tentava relembrar tudo o que havia pesquisado. Mas minha memória havia saído para passear. Minha situação se encaixava no velho verso de Drummond “E agora, José?”. Não fazia ideia do que fazer. Havia ensaiado tudo e agora minha mente parecia um papel em branco. Só me lembrava do objetivo de estar ali e mais nada.

Minhas mãos geladas suavam enquanto estava estatelado de frente pra redação. Saí do transe quando o porteiro perguntou o que desejava. Gaguejei e disse que estava ali para uma entrevista. Ele me ofereceu água. Aceitei e, segurando firme o copo, respirei fundo. Já estava ali e lembrei que faz parte do fazer jornalístico saber improvisar.

Entrei na sala de espera e, poucos minutos depois, vi um homem alto se aproximar. “Não deve ser ele” pensei. Usava calça jeans, camiseta e tinha os braços tatuados. Era completamente diferente da imagem que criara de um editor chefe. Estava errado.

-Marcos?
-Sim!
-Me acompanhe até o escritório!
A sala era simples e com janelas enormes de vidro. Não foi uma sabatina como imaginava, mas uma conversa tranquila. Tentei ser o mais sincero possível e redigi uma matéria. Ele não disse que me ligaria depois. Fui contratado!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s