A tecnologia nos faz escolher entre privacidade, segurança ou conforto

Por Gabriel Shinohara

Imagine uma terra onde todas as informações do mundo estão acessíveis a todos, de graça, mas, para acessar esses dados, você precisa passar os seus: primeiramente, nome, idade e cidade; mais para frente, costumes, gostos, hábitos e amizades. Seria uma troca justa?

Aplicativos como o Waze, Pokemon GO, Facebook e WhatsApp trazem mais conforto ao cotidiano, mas captam seus dados para isso. Menos privacidade vale mais conforto? Mais privacidade vale menos segurança?

No WhatsApp, a questão é judicial há algum tempo, o que não é exclusividade brasileira. A Justiça pede dados de conversas, mas a companhia nunca fornece, afirmando não possui-los, pois passam muito pouco tempo nos servidores e tem a famosa criptografia ponta-a-ponta, na qual somente a pessoa que envia e a que recebe conseguem decodificar.

Na última vez que tivemos esse aplicativo bloqueado, em julho, a Justiça do Rio de Janeiro pediu que ele desabilitasse a criptografia e mandasse toda a conversa em tempo real para os investigadores, como acontece com conversas telefônicas grampeadas. O contraponto é que, dada essa jurisprudência, a segurança da privacidade dos usuários estaria nas mãos de qualquer juiz ou governo que estiver afim de te ouvir.

Claro que esse não é um grande problema para a maioria da população, o famoso “não tenho nada a esconder”, mas privacidade é direito do cidadão e não é por não ter nada a esconder que privado pode virar público. Citando o jornalista Glenn Greenwald, em sua palestra no TED “Why privacy matters”:

Essa visão de mundo está baseada na preposição de que existem dois tipos de pessoas: as boas e ruins. As pessoas ruins são as que planejam ataques terroristas, participam de crimes violentos ou têm razões para querer esconder o que fazem, têm razões para se preocupar com a privacidade. Em contraste, pessoas boas vão ao trabalho, voltam para a casa, cuidam de seus filhos, assistem televisão… eles usam a internet, não para planejar ataques à bomba, mas para ler notícias ou trocar receitas. Essas pessoas não estão fazendo nada de errado e, portanto, não tem nada a esconder e não tem razões para temer a monitoração do governo. As pessoas que acreditam nisso realmente engajam numa linha de depreciação própria, o que eles realmente estão dizendo é que eles concordaram em se tornar cidadãos tão inofensivos e desinteressantes que não veem problema do governo saber o que estão fazendo. – Glenn Greenwald

Esse monitoramento completo, que traça paralelo explícito com as teletelas do “1984”, poda o indivíduo mesmo quando, aparentemente, estão sozinhos. O próprio Greenwald dá o exemplo mais palpável: milhares de virais no YouTube onde pessoas fazem coisas em seus quartos, como dançar e cantar, que, certamente, não fariam se soubessem que estavam sendo observadas.

Outro paralelo que pode ser feito é com o panóptico, de Bentham. O panóptico é um modelo de prisão circular em que guardas ficariam numa torre, no centro, e teriam visão completa de todas as celas. O detalhe é que as janelas desta torre teriam uma espécie de insul-film, impedindo que os prisioneiros soubessem se estavam sendo vigiados ou não.

Esse modelo de vigilância seria efetivo exatamente por não permitir brechas. Qualquer ação criminal, bizarra ou apenas estranha aos olhos dos guardas seriam percebidas. A metáfora está mais que clara.

Para saber mais:

Podcasts

Mamilos 76 – Banimento do WhatsApp e preconceito linguístico

Anticast 245 – Vigilância e segurança: a sua privacidade online

Vídeos (em inglês)

Government Surveillance: Last Week Tonight with John Oliver (HBO)

Glenn Greenwald – Why privacy matters?

Textos

Panóptico – Jeremy Bentham

PF quer instalar vírus em telefone grampeado para copiar informações (Folha)

Justiça do Rio determina bloqueio do WhatsApp no Brasil (Folha)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s