O crime de usar roupas

Por Gabriel Pimentel
Imaginemos o seguinte quadro: padres, freiras, bispos e companhia são proibidos por lei de andar com vestimentas que sua religião exige. Levariam multas se fossem vistos trajando-as e teriam cerca de 64% da população apoiando a proibição, segundo dados do jornal francês Le Figaro. Não precisamos fazer comparação com religião: a maioria dos terroristas que conduziram atentados estavam usando calças. Claramente, deve haver ligação entre uso de calças e atentados terroristas. Na verdade, bem maior do que a relação entre burkinis e atentados, que é em torno de 0%.

A proibição dessa vestimenta, infelizmente, está relacionada ao terrorismo. Nice disse que o motivo era barrar roupas que “manifestem adesão a uma religião em um momento que a França e lugares de adoração têm sido alvo de ataques terroristas”. Em 29 de agosto, a proibição foi suspensa temporariamente nos mais de 15 municípios de acordo com matéria do Estadão. Isso porque a Liga dos Direitos Humanos declarou se tratar de violação às liberdades civis e o Conselho do Estado tomou a decisão de suspendê-la.
O assunto ganhou destaque na mídia quando Nice e Cannes aderiram à lei e aplicaram multas à mulheres usando o traje, chegando ao ponto de policiais forçarem uma mulher a retirar a roupa na praia. A questão, claramente, não é a roupa, mas o que há de simbólico nela, o que torna tudo pior. Estamos falando do país que tem como lema “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” e que deturpa todo o seu significado para dizer que, de alguma forma, proibir o uso de vestimentas de uma religião – mas não de outras – é igualar a população.
Esquecem-se do fato da liberdade estar na equação e ser tão importante quanto as outras. Por que o véu islâmico é proibido dentro de escolas e repartições públicas, mas qualquer pessoa pode usar crucifixo livremente? A comparação é óbvia, mas ilustra claramente que a luta é contra uma religião específica. Por exemplo, no momento em que a Polícia obrigava a mulher a retirar seu burkini, havia pessoas gritando “nós somos católicos aqui”, segundo a agência britânica Reuters.
O Estado deve, sim, ser laico, mas não anti-religioso, ainda mais de forma tão direcionada. A laicidade não deve negar religiões, mas protegê-las sem discriminação. O que municípios franceses têm feito é, de acordo com a justificativa dada por eles, uma forma de punir muçulmanas em vez de buscar resguardá-las. Até porque se são trajes fundamentais na cultura islâmica para algumas mulheres, proibi-los não passa de uma maneira de diminuir suas liberdades e, de certa forma, marginalizá-las por praticarem suas crenças.

Há, ainda, o argumento de que véu é opressão religiosa às mulheres, e, portanto, seria um modo de libertá-las das amarras religiosas que as obrigam a usar tal roupa. De fato, para muitas mulheres, véu é opressão quando obrigatório, mas proibi-lo é fazer exatamente o mesmo: não permitir que a mulher decida se quer seguir ou não uma tradição religiosa. Ela precisa ter total autonomia na hora de decidir. Proibir ou obrigar são duas faces da mesma moeda.

A proibição fica mais absurda quando se pensa nela de forma literal: municípios franceses proíbem trajes de banho e obrigam mulheres a retirá-los. Há contexto religioso e político bem complexo por trás disso, mas, na essência, o que a França faz é passar a controlar as roupas que a população usa, com base em argumentos vazios e que escondem preconceitos e medos infundados. Ademais, o partido Frente Nacional revelou intenções de proibir véu, crucifixos e quipás nos espaços públicos. Talvez, quando começar a atingir moradores católicos, haja resposta à altura do absurdo dessas decisões.

Foto de capa: AFP/Getty

Um comentário sobre “O crime de usar roupas

  1. Isabel disse:

    É realmente um absurdo!
    Esses dias uma pessoa de cinquenta e poucos anos me disse: não faz muito tempo, as mulheres eram obrigadas a se cobrir na praia; hoje somos obrigadas a nos descobrir. Qual a diferença?
    É como diz o artigo: obrigar e proibir uma roupa são dois lados da mesma moeda.
    E acho que além do preconceito religioso, há um alto grau de machismo nessa história.

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