Queria me ver na TV

Por Gabriel Shinohara

Nesta semana, a Globo lançou a nova novela das seis, Sol Nascente. Conta a história de amor entre a filha de uma família nipo-brasileira e o filho de uma família ítalo-brasileira. Até agora, um roteiro normal de novela: desencontros, tretas, ciúmes e toda aquela coisa que a gente gosta de ver. Só um detalhe: o nome do ator que faz o patriarca da família japonesa é Luís Melo e o da filha protagonista (adotada), Giovanna Antonelli. Não parecem nomes muito orientais, certo?

Não são.

Mais uma vez, mesmo depois de tantos debates sobre representatividade  — inclusive, uma mudança histórica no Oscar —, as produções culturais continuam errando e embranquecendo todas as etnias, com a desculpa da palatabilidade do produto e da falta de atores no mercado.

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Vamos brincar de Quem é o protagonista? (Foto: Divulgação/Globo)

A razão dada por Walther Negrão, autor da novela, foi a de que não achou ator japonês ou nikkei (descendente) com peso para protagonizar uma produção desse tamanho. Três problemas nesta afirmação:

  • Se não começar de algum jeito, nunca haverá um ator de “peso”. Sem espaço, não há como aparecer.
  • Escolher um ator, por melhor que seja, para interpretar outra etnia é desonesto e nocivo.
  • De acordo com a Folha, o ator japonês naturalizado brasileiro Ken Kaneko foi originalmente escalado para o papel, mas, posteriormente, substituído por Luís Melo.

Também segundo a Folha, a assessoria da Globo afirmou que a novela não era sobre o Japão. Mais duas coisas: a novela chama “Sol Nascente” e não importante se o assunto principal é o Japão ou a queda do valor da cana guatemalteca; seria no mínimo bom senso escolher um ator oriental para interpretar um personagem oriental.

Problemas na representatividade

Claro, terão os que indagam sobre a real importância da representatividade na mídia. Estes que, provavelmente, sempre se viram nas novelas, filmes etc. e não sabem que falta faz essa visão de si mesmo no mundo.

Eu mesmo, fui me ver diferente e refletir sobre o assunto nos meus 20 anos, depois de uma situação clara de racismo. Só a partir daí comecei a pensar retroativamente e relembrar casos em que os meus olhos “puxados” foram razão para “brincadeiras” ou frustração.

A primeira coisa que vem à mente são as festas à fantasia de quando era criança. Simplesmente, não havia personagens, que eu conhecesse, dos quais eu poderia me fantasiar. Sempre era o “Super homem japonês” ou “Indiana Jones japonês”. Sempre um adjetivo após o substantivo.

Mais tarde, todo o bullying que eu sofria quando criança era diretamente relacionado as características da minha ascendência — mesmo eu sendo a terceira geração aqui no Brasil e, ainda, mestiço. Não era algo que percebia na época, achava que era só porque eu tinha uma cabeça gigante e era totalmente nerd.

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Fiquei bem feliz nessas Olimpíadas

Porém, imagino que são dramas de todo descendente de recém-imigrados (não-europeus). Sua família e suas características físicas são totalmente diferentes do local onde você nasceu, sua etnia é de extrema minoria (1,5% da população) e sua imagem naturalmente não está em outdoors ou novelas.

Mas se vão contar uma história envolvendo a minha etnia, por favor, usem atores da minha etnia.

Vocês não tem ideia de como é saudável e, realmente feliz, se ver na TV.

Foto de capa: Divulgação/Globo

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