Você se sente segura(o) dentro da universidade?

Lorena Fraga para o SOS Diversidade

Trote, homofobia, racismo, assédio, estupro, roubo. Por que atos dessa natureza ocorrem num ambiente que deveria ser seguro? Todos os dias, milhares de estudantes circulam pelos corredores do Instituto de Ciências Centrais (ICC) no campus Darcy Ribeiro da Universidade de Brasília (UnB). Mas, entre cadernos, apostilas e passos apressados, esconde-se a face do medo que assola a academia nos últimos anos: a violência.

Dados da Secretaria de Estado de Segurança Pública (SESP-DF), estimam que, de 2011 a 2014, os índices de violência dentro desse campus aumentaram 68,9%. Ademais, uma pesquisa feita pela Revista Galileu, no início de 2016, revelou que as maiores vítimas da barbárie universitária são mulheres. Para entender esses números, é necessário ir a fundo e fragmentar as razões que levam jovens brilhantes a se tornarem criminosos dentro de um ambiente de desconstrução de ideias e comportamentos nocivos.

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A aprovação no vestibular inicia uma nova etapa na vida de estudantes. Por um lado, deparam-se com um mundo novo cheio de oportunidades. Por outro, encontram festas regadas a álcool, drogas e sistemas hierárquicos opressores os quais marcam o começo da vida acadêmica. Sabendo da difícil adaptação nesse ambiente, os trotes tem como objetivo promover interação entre calouros e veteranos. Porém, nem sempre é assim.

Trotes violentos e opressores se tornaram corriqueiros nas graduações. Em 1999, um calouro de Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) morreu afogado enquanto participava de uma atividade desenvolvida por veteranos. Em 2015, estudantes dessa faculdade trouxeram a público casos de estupro e assédio cometidos por outros alunos.

Dados da Revista Galileu, afirmam que, de 1741 graduandas, 40% têm medo de sofrer violência nas universidades federais, 10% já sofreram e 46% conhecem casos de colegas que tiveram integridade física e psicológica tentada enquanto participavam de festas, competições e trotes, denunciando também o machismo enraizado em tais atos.

Estudantes da UnB fazem ato contra a insegurança no campus

A estudante do 3º semestre de jornalismo na UnB Kellen Barreto, de 20 anos, relata que a segurança era uma das principais preocupações dos pais com seu ingresso na graduação. Conhecida pela excelência de ensino, a fama da 4° melhor universidade do País tem sido manchada por casos que estampam colunas policiais dos jornais da cidade.

No início de 2016, o feminicídio da graduanda em ciências biológicas Louise Ribeiro num dos laboratórios do Instituto de Biologia (IB) causou comoção, revolta e desconfiança. A comunidade se chocou com a brutalidade do crime e como ele se deu dentro das dependências da UnB sem que alguém percebesse.

Roubos também são comuns. Estudantes relatam que não podem estacionar em determinados locais por medo de terem pneus furtados. Kellen conta que, no 2º semestre, presenciou uma colega ter os materiais roubados no Centro Acadêmico de Comunicação (Cacom). Conta, ainda, que não se sente segura no campus, mas nunca deixou de participar de um evento da faculdade. Por isso, está sempre alerta.

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Não existe lei que proíba trotes. Um projeto de lei está em trâmite no Congresso Nacional, mas sem previsão de aprovação. Em São Paulo, uma legislação específica veta trote violento. Em 2012, a UnB fez campanha para incentivar o trote solidário e, em 2016, após o caso Louise, a segurança foi reforçada.

Diante disso, resta a reflexão. Jovens de educação primorosa, aprovados nos vestibulares mais concorridos do país e, em sua maioria, vindos das melhores escolas, com acesso a educação, se tornam propagadores de atos de violência cruéis em casos, muitas vezes, abafados pelo corpo docente.

É essa a universidade que se quer? Conhecidas desde a fundação por serem espaços de debate e desconstrução social, elas não podem ou devem servir como mecanismo de reforço às violências, opressões e discriminações. Deve-se criar, dentro do espaço acadêmico, um meio livre de preconceito e violência para que os futuros profissionais saiam de lá com educação não só conteudista, mas também humana, de respeito e empatia.

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