Eles querem primeiras-damas, não presidentas

Por Lorena Fraga

Em meio ao fervor político do País com processo de impeachment e Operação Lava-jato, a mídia se voltou para um elemento até então insignificante, mas que ganhou espaço em grandes jornais, como Folha de S. Paulo, R7 e IstoÉ: o vestido branco de Marcela Temer no desfile de 7 de setembro em Brasília. É o auge da futilidade e do machismo o fato de que uma simples vestimenta desvie o foco dos reais problemas. Comentários e analises sobre o vestido são feitos com minúcia e cuidado. No entanto, é preciso ir além e aprofundar o debate sobre ela.

A até então vice-primeira-dama do País não era muito de aparecer e concedeu pouquíssimas entrevistas enquanto o marido era vice-presidente. Porém, bastou o polêmico e controverso artigo da Revista Veja a descrevendo como “bela, recatada e do lar” para que se tornasse pauta de jornais e conversas. Cada aparição de Marcela passa a ser motivo de furor, rendendo comentários dos mais diversos, sobre as roupas, o casamento com homem 43 anos mais velho e, principalmente, sobre a real função no Governo.

Em público, sempre é discreta, usa roupas em tons pastéis. Nas poucas entrevista, sempre exaltou o marido, a relação familiar e como gosta de se dedicar aos afazeres do lar. Oriunda de classe média alta, teve poucos empregos na vida: um de recepcionista durante um curto período de tempo e o outro de modelo. Representou Campinas e Paulínia em concursos de beleza do interior de São Paulo e, em ambos, ganhou o segundo lugar.

Cursou direito, mas nunca exerceu a profissão. Conheceu Temer e, um ano depois, se casaram numa cerimônia discreta e reservada para menos de 50 convidados. Sempre à sombra do marido, a primeira-dama representa tudo o que o Governo quer para as mulheres: um papel de coadjuvante, jamais de protagonista.

Quando o assunto é Marcela, não é difícil encontrar comentários como “Isso, sim, é uma primeira dama”, “agora, sim, uma mulher que nos representa” e “linda, discreta e jovem, e vocês ainda preferem a Dilma?” em portais de notícia e redes sociais. É importante perceber o machismo de cada dia enraizado em cada um deles.

Dilma Rousseff foi a primeira mulher a presidir o país e, sempre vista como rígida, sofreu duras críticas e um impeachemnt – ainda se discute a legitimidade do ato –, além da difícil relação com o Parlamento, majoritariamente por homens brancos e ricos que bradam que estão ali para “preservar valores familiares e religiosos que estão se perdendo na contemporaneidade”. É um congresso conservador e machista, que não aceitou que uma mulher lhes comandasse, um congresso que odeia Dilmas e idolatra Marcelas.

Comparada à Maria Antonieta pelo jornal suíço Tagesanzeiger, Marcela é vista como personificação da natureza reacionária do Governo Temer, o qual não dá protagonismo às mulheres e faz questão deixar à mostra o papel delas na sociedade: o de submissão ao patriarcado. Seguindo essa perspectiva, mulheres podem estar ao lado de “um grande homem”, mas nunca serão a grande mulher; sempre secretárias de ministros, nunca ministras.

A figura de Marcela lembra à população o retrocesso político e histórico que matou não só a democracia como também tenta calar a voz das minorias. A tentativa governamental de aproximar a imagem dela à da brasileira comum falha duramente em diversos aspectos. O vestido branco com “corte minimalista que da a ideia de leveza e paz e parece ter saído do armário de uma brasileira comum apesar de custar quase um salário mínimo” segundo o colunista da Folha de S. Paulo, Pedro Diniz, esconde gastos exorbitantes da “exemplar” primeira-dama com grifes de luxo e viagens internacionais de um dia e a finalidade de “fazer umas compras” que não são o padrão da brasileira média.

Diferente dela, Dilma não segue padrões de beleza, não é recatada ou “do lar”. Ela pouco lembra a subserviência e delicadeza feminina que é cobrada do gênero feminino, não se cala diante de acusações e vontades de “Mi”- apelido pelo qual Temer é conhecido no seio familiar, como revelou Marcela em entrevista à Revista Veja. Dilma é mulher, líder, protagonista, presidente, tudo que a sociedade não quer. O problema não é Marcela Temer, mas o todo o cenário que a cerca e o imaginário que a constrói.

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