Relacionamentos abusivos além das bilheterias

Por Tamires Mendes

Obs: a matéria contém spoilers do filme Esquadrão Suicida. Este também é um aviso de gatilho (TW, na sigla em inglês) para violência psicológica e física contra mulheres e relacionamentos abusivos.

Esquadrão Suicida, da DC Comics, é um dos grandes destaques cinematográficos de 2016. A expectativa criada foi além das barreiras do mundo dos fãs de histórias em quadrinhos. Com um elenco de peso formado por Will Smith, Jared Leto, Cara Delavigne, Viola Davis e Margot Robbie, trilha sonora bem elaborada e forte divulgação, o enfoque foi direto ao filme, lançado em 4 de agosto.

Antes da estreia, já era alvo de fortes críticas. Uma se relacionava à Harley Quinn, interpretada por Margot, e ia da hipersexualização de personagens femininas à sua relação com o vilão Coringa. Outra, que vai de fãs a críticos de cinema, trata-se da grande romantização realizada em personagens que vivem relacionamentos tão problemáticos. Afinal, a ideia que se mostra é a de que Coringa corresponde aos sentimentos de Harley.

Em síntese, Harley era psiquiatra de Coringa em Arkhan. Ela acaba se apaixonando pelo paciente, o que caracteriza Síndrome de Estocolmo, doença na qual a vítima desenvolve afeto por seu(s) agressor(es). Coringa realiza diversos jogos mentais com ela para conseguir fugir e faz com que a doutora fique dissimulada para se aproveitar de seu estado mental fragilizado.

Ela é vítima de violência psicológica e de uma relação extremamente abusiva, fato sempre explícito nos quadrinhos. Afinal, a intenção dos autores é chamar atenção para esses casos. Por diversas vezes, inclusive, é usada como escrava sexual e submetida à violência física e verbal. Ademais, muitas vezes, sofre tentativas de feminicídio por parte de Coringa.

Além disso, casos de agressão ligados a relacionamentos abusivos ultrapassam a frase “as pessoas precisam saber separar a ficção da realidade”. Talvez, seja hora de pensar que se deve entender o que a ficção pode mostrar aos espectadores e tentar mudar elementos na sociedade, porque ninguém deseja ser uma Harley do mundo real. Todavia, infelizmente, elas existem.

Todos os dias, milhares de exemplos trágicos sobre esse tipo de relação vêm à tona na sociedade e na mídia, como em casos de feminicídio. Há uma necessidade estranha de dominação, ainda mais se o outro lado for mulher. Ademais, muitas das vítimas não percebem que o são, o que dificulta a solução do problema. A maneira com que esse assunto é retratado pode demonstrar certa imagem passiva diante de assunto tão sério, como no caso desse casal.

De acordo com o Mapa da Violência 2015: Homicídio de mulheres no Brasil, o País tem a taxa de 4,8 homicídios por 100 mil mulhere. Num grupo de 83 países com dados homogêneos, fornecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS), ocupa a 5ª posição. Quando se trata de agressões, sem óbito, 3 a cada 5 mulheres jovens já sofreram violência em relações, aponta pesquisa (Agência Patrícia Galvão – 03/12/2014). Além disso, 51% das jovens entrevistadas foram perseguidas e chantageadas por ex-namorados e 66% sofreram violência e foram submetidas a controle excessivo por parte dos parceiros.

A temática vai além de questões como separar realidade e ficção. O debate permanece ativo e a procura de ajuda na hora de dar fim a esses relacionamentos é fundamental. Infelizmente, casos reais que acabaram tragicamente não são uma exceção. A estudante de ciências biológicas Louise Ribeiro, de 20 anos, brutalmente assassinada pelo ex-namorado na Universidade de Brasília (UnB) é um dos inúmeros casos absurdos que chocaram e comoveram a população e não devem ser esquecidos.

Caso haja chantagens, agressão verbal ou outro tipo de violência, a Polícia deve ser contatada. No entanto, pedir ajuda nem sempre é fácil. Há grupos de apoio especializados na Delegacia da Mulher e, também, é fundamental que família e amigos se mantenham em alerta.

Vale ressaltar que relacionamentos abusivos não se resumem a agressões físicas. Violência psicológica e/ou quando um dos parceiros costuma culpar o outro pelos erros dele, realiza ameaças, demonstra manipulação, possessividade e superioridade, exerce controle também se encaixam. Dentre outras consequências, fazem com que a(o) parceira(o) se sinta inferiorizada(o) e ameaçada(o). Deve ser combatido, uma vez que coloca em risco saúde física e mental dos indivíduos.

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