Qual lição as heroínas trazem ao público?

Por Kallyo Aquiles

Nota da editora: a matéria contém spoilers do filme Esquadrão Suicida e da série Jessica Jones. Este também é um aviso de gatilho (TW, na sigla em inglês) para violência psicológica e física contra mulheres e relacionamentos abusivos.

Vamos problematizar um pouco? Quem assistiu ao filme Esquadrão Suicida? Como podem ter notado, Arlequina é uma ex-psicóloga que se apaixonou pelo paciente, Coringa, e teve imensa obsessão por ele. Ele, maníaco, louco e desequilibrado, passa a fazer diversos experimentos e tem com ela uma relação de posse e abusos.

Nos quadrinhos, o relacionamento deles é enfatizado com frequência como abusivo, tendo inúmeras cenas que retratam isso. Inclusive, hoje em dia, a personagem assumiu ser lésbica e namora Hera Venenosa, outra vilã – deixando a submissão que possuía pelo palhaço psicótico. Todavia, por algum motivo, o filme decidiu ir por outro caminho: vemos uma Arlequina totalmente sexualizada, sem personalidade, submissa ao extremo num relacionamento abusivo totalmente romantizado pela narrativa do filme.

Por ser a personagem com o provável maior alcance na mídia e no público devido à sua popularidade, antes do lançamento de Esquadrão Suicída, carregava consigo a importante responsabilidade em lecionar o quão impróprio é o relacionamento abusivo. Dessa forma, demonstra que até mesmo uma vilã não merece passar por algo do tipo – assim como sua contrapartida nos quadrinhos passa aos leitores.

Todavia, a Warner (DC Comics) entrega um filme repleto de estereótipos sexistas e um Coringa galã que “salva” Arlequina no fim, acompanhado de um beijo hollywoodiano que fez, provavelmente, muitas pessoas torcerem pelo casal. A hipersexualização dela, por exemplo, apenas reflete o quão o cinema em sua estrutura – direção e roteiro – tem a evoluir na adaptação de heroínas às telonas. Isso se deve à crescente popularidade de filmes de herói, que carregam a responsabilidade social de tentar passar mensagem positiva à sociedade – caso não faça isso, que não passe sentido negativo.

Dentre muitos absurdos, cito o maior que vi sobre isso: nos primeiros materiais de divulgação, Arlequina aparecia com short num certo tamanho. Posteriormente, quando a obra foi lançada, vemos a mesma cena do trailer, mas com short menor, revelando que as imagens foram manipuladas digitalmente para que mais das nádegas da atriz Margot Robbie fosse mostrado.

arlequina

A função narrativa desta cena é zero.

Em contrapartida, temos Jessica Jones, heroína da Marvel que protagoniza série na Netflix. Cheia de personalidade, estilo próprio, sem estereótipos e com zero de sexualização, Jessica entrega lições importantes sobre o quão inválidos e prejudiciais são as relações abusivas e que você não é obrigada a aceitar tamanhos absurdos. A série trilha o caminho de mostrar uma heroína que inspira atitude e nada submissa.

Quando observamos a incrível jornada dela, fica notável o quão ausente é tal figura feminina em locais de maior alcance da mídia, como o cinema. Esse fato, talvez, mostra unicamente que é possível que símbolos como ela não vendam tanto como Arlequina, deixando visível o machismo que ainda há na indústria dos filmes de super-heróis.

O maior problema em haver uma falta gritante de heroínas é quando, nas tentativas de introduzi-las, aja versões estereotipadas e questionáveis delas. Essas situações também se aplicam a diversas situações, como o trailer de Mulher Maravilha (lançamento previsto para 2017) no qual homens são os que mais falam ou Viúva Negra se tornar mero símbolo sexual com sua roupa decotada entre os homens em suas armaduras.

Somos atacados por personagens rasas em que a única coisa que têm a entregar são a submissão e o corpo. Todavia, é justificável quando você nota que os diretores de muitos filmes dessa indústria são homens – o que a série Jessica Jones também se difere, sendo criada pela cineasta Melissa Rosenberg.

Melissa já afirmou que procurou ativamente evitar a imagem de Jessica Jones tendo de se disfarçar e seduzir alguém para conseguir informações. Segundo ela, isso é um clichê em qualquer mídia protagonizada por uma mulher forte, mas, por ela, “isso nunca vai acontecer aqui”. Tal fala reflete bem a diferença em roteiros e construção de personagens que uma heroína pode ter para a outra.

Naturalmente, o debate vai além disso. Porém, talvez, seja essencial este breve pensar sobre o assunto para que desperte em cada um o senso crítico quando o assunto é a mulher como heroína.

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Mais Jessica Jones, menos Esquadrão Suicida. Fonte: página oficial da série no Facebook.

Se quiser ler mais sobre o assunto, o SOS Imprensa publicou Relacionamentos abusivos além das bilheterias, de Tamires Mendes, em 13 de setembro.

Arte de capa: Kallyo Aquiles

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