Precisamos falar sobre suicídio

Por Gabriel Pimentel

Cerca de 90% dos casos de suicídios poderiam ser evitados caso as pessoas tivessem recebido apoio profissional e familiar adequado. Países como Canadá sabem disso e investem fortemente em campanhas de prevenção, que são, de fato, eficazes. O Brasil, infelizmente, continua com tendência a não discutir o problema que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mata uma pessoa a cada 40 segundos no mundo. O Brasil, por sua vez, é o oitavo país com maior número de suicídios, tirando a vida de uma pessoa a cada 45 minutos.

A depressão já é a doença mais incapacitante do mundo e deve ser, até 2030, a mais comum. E, sim, é uma doença séria que pode levar à morte, que possui sintomas e pode ser tratada. Além do Canadá, apenas outros 27 países contam com políticas para prevenir o suicídio e é exatamente o que falta no Brasil.

O tema precisa ser discutido, precisa estar em pauta. É necessário falar sobre suicídio sem tabus que existem atualmente na sociedade. A raiz dessa falta de discussão é a mídia, que, capaz de colocar assuntos dentro da esfera pública, nunca o coloca para ser discutido nacionalmente. Os casos de suicídio, a não ser de figuras proeminentes, são pouco noticiados no País. O tema não chega ao público a não ser em raras exceções e, por isso, não há discussão geral sobre sua seriedade.

É claro que a família da vítima merece, no mínimo, não ser perturbada. É compreensível, mas faz falta esse tema estar em pauta. Trata-se da 20º maior causa de morte de brasileiros em 2013 segundo o Ministério da Saúde. Não é um problema pequeno e a população deveria estar ciente de sua gravidade. Não é necessário noticiar cada suicídio, mas inserir o assunto na discussão popular e, consequentemente, governamental. É um potencial desperdiçado, uma vez que a mídia brasileira, em geral, não o tem trabalhado.

Há, de certa forma, medo de que falar sobre a questão seja incentivá-la. Caso se leve em conta como o jornalismo brasileiro aborda questões que envolvem vidas de outras pessoas, o medo se justifica, mas, se ocorresse de outro modo, tratando de forma adequada, o efeito seria exatamente o contrário e, obviamente, positivo.

Por que o assunto precisa ser discutido, falado e debatido? Brasil falha grandemente com quem tem depressão e tendências suicidas. Faltam políticas públicas que criem formas acessíveis de as pessoas terem acesso a informações e tratamento profissional o qual é, frequentemente, caro, e, se não é, é demorado e difícil de se obter, o que pode ser letal para aqueles que já pensam em suicídio.

Faltam campanhas de prevenção que levem às pessoas formas pelas quais possam pedir ajuda e que isso seja ofertado de forma fácil. Pedir ajudar nesses momentos pode ser extremamente difícil. O vírus do HIV já mata menos no mundo do que o suicídio. Tal fato se deve a campanhas de prevenção, uso de preservativos e disponibilidade de testes gratuitos, dentre outros. Depressão, e, consequentemente, suicídio, não recebem tamanha atenção do governo e da mídia.

Falta, no Brasil, acompanhamento psicológico para, por exemplo, estudantes de ensinos fundamental, médio e superior. Jovens em desenvolvimento que, não raro, têm problemas familiares e precisam lidar com um universo novo a cada dia, corresponder a expectativas, conviver com o bullying e outros tipos de pressão que vêm com o amadurecimento.

As camadas mais pobres da sociedade precisam ainda mais da oferta de acompanhamento psicológico acessível: não têm renda para arcar com profissionais da área e sofrem grande pressão devido aos problemas sociais e econômicos. De acordo com a OMS, cerca de 75% dos casos de suicídio acontecem em países onde a renda da população é considerada baixa.

O Setembro Amarelo surge dessa necessidade. É uma campanha com objetivo de conscientizar a população sobre a seriedade do suicídio no Brasil e como preveni-lo. Ocorre desde 2014 e é a partir de ações como essa que o assunto deixa de ser tabu, passa a ser discutido e vira tema de discussão na sociedade. A tendência é que essa ela cresça a cada ano, se faça gradativamente mais presente na mídia e realize cada vez mais campanhas informativas e preventivas. É de movimentos como esse que o assunto precisa.

Já existem, no Brasil, formas pelas quais você pode pedir ajuda e conversar caso tenha pensamentos suicidas ou depressão. O Centro de Valorização da Vida (CVV), um dos organizadores do Setembro Amarelo, conta com números de telefone, skype, e-mail, chat e visitas presenciais se você precisar de ajuda e não sabe o que fazer ou com quem conversar. Como o próprio centro diz, “falar é a melhor solução”.

Ligue 141 ou acesse o site e veja as outras formas pelas quais você pode entrar em contato com a organização: http://www.cvv.org.br/

O CVV disponibiliza, ainda, no site um folheto voltado para jovens e adolescentes com o objetivo de falar abertamente sobre o assunto. Além disso, também há disponível orientações para profissionais de imprensa sobre como abordar o tema.

Imagem de capa: Campanha para o Setembro Amarelo do CVV.

 

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