A incrível geração que só quer ser incrível

Por Melissa Duarte

Muito se fala sobre a Geração Z – jovens de até 20 e poucos anos – na mídia em 2016, sobretudo nas últimas semanas. Somos da era da internet; celulares, tablets e notebooks se tornaram extensões do nosso corpo. Vivemos em tempos líquidos e temos muito mais acesso à informação e à tecnologia do que as gerações anteriores. Contudo, muitas vezes, isso nos deixa perto de quem está longe, mas longe de quem está perto.

A adolescência da geração Z é superestimada, sobretudo em razão da publicidade, como trabalha o escritor e psicanalista Contardo Calligaris no livro A adolescência. Há a liberdade sem as responsabilidades da vida adulta. Crescemos com o sonho de trabalhar com o que amamos e a vontade de mudar o mundo. Se unirmos ambos, tanto melhor. Essa, inclusive, pode ser uma invenção capitalista para nos fazer trabalhar mais – como se já não o fizéssemos muito. Todavia, a vida adulta chega e nos mostra que dinheiro é necessário e que, infelizmente, somos apenas mais uma peça na engrenagem do sistema.

Ademais, relações humanas se tornam cada vez mais descartáveis, como se vê no jornal Estadão. Relacionamo-nos com cada vez mais pessoas e menos profundidade. Temos mais de 700 amigos no Facebook e 200 no Snapchat, 500 seguidores no Instagram e no Twitter, milhares de mensagens no WhatsApp e no Telegram… O círculo social, infelizmente, vai se reduzindo a números e telas. Muitas relações, poucas conexões.

Entretanto, isso não é, de todo, ruim. Modificamos os relacionamentos amorosos, porque a vida e as construções psicológicas e sociais também mudaram. Dependendo do ponto de vista, podem ter se tornado superficiais e com menos envolvimento – na perspectiva do sociólogo Zygmunt Bauman no livro Amor líquido – ou mais dinâmicas e livres, como celebra outro sociólogo, Anthony Giddens, na obra A transformação da intimidade.

Todavia, muitas vezes, encaramos tal liberdade como a única forma de ser feliz. Desse modo, precisamos de muita maturidade para discernir o que é, de fato, vontade própria e o que é feito porque achamos que é o certo ou o que queremos. É necessário, portanto, se conhecer profundamente para que a pressão social não se torne autoimposta.

Ademais, queremos muito, tudo, ao mesmo tempo – na velha intensidade em águas rasas que nos caracteriza. Todavia, infelizmente, o combo sucesso acadêmico-profissional mais vida amorosa e sexual ativa com colheradas de vida social não existe no mercado. Falta equilíbrio e não há organização que solucione o vício em trabalho. Vivemos entre passado e futuro, mas pouco no presente – que é, antes de tudo, apenas isso. Estamos tão hiperconectados com o mundo que nos desconectamos do que realmente importa: nós mesmos.

Por isso, infelizmente, somos a geração da ansiedade, do estresse e da depressão. Vendemos saúde em troca da menção máxima na faculdade, do estágio que pode virar o emprego dos sonhos, do intercâmbio que pode mudar a vida. Porém, esquecemo-nos de que dinheiro não trará de volta o bar com os amigos, o futebol de domingo, o aniversário da mãe, o Dia dos Pais, o abraço apertado do primo que não para de crescer.

Somos senhores e escravos de nós mesmos, numa relação capitalista totalmente prisioneira e insustentável, como analisa Eliane Brum em sua coluna para o jornal El País. Tomamos café para ficarmos acordados, rivotril na tentativa de se encontrar em meio ao caos e omeprazol antes de cada um deles para não desencadear a gastrite outra vez.

Mas até que ponto nosso trabalho nos define? Como descreve o Estadão noutra matéria, trabalhamos demais, exigimo-nos demais e não lembramos que somos, primeiramente, humanos. E humanos falham, adoecem, choram, pedem colo. É comum quando se tem tão pouco tempo para tantas demandas. Não somos máquinas, por mais que o sistema tente nos tratar assim. Por isso, a conta não fecha. Quem ganha sempre acaba perdendo.

Dessa maneira, as metas se tornaram gradativamente maiores e se encaminham para a insustentabilidade. Casa própria e viagem de verão não bastam mais. Precisamos parar de usar nossa liberdade para nos escravizarmos em troca de dinheiro para comprarmos uma vida bonita nas redes sociais. Nosso trabalho deve servir a nós, não o contrário.

E escrevi tudo isso para dizer que a gente só quer ser incrível, mas incrível de verdade é ter tempo.

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