O senhor da guerra não gosta de crianças

Por Lorena Fraga

Em março de 2011, mergulhados em profunda crise social e econômica e inspirados pela Primavera Árabe, cidadãos sírios saíram às ruas em protesto pacífico pedindo libertação de quatro jovens. Eles haviam sido presos por pintarem um grafite em oposição ao governo. Os manifestantes também clamavam por maior liberdade de expressão e democracia na Síria.

O governo de Bashar Al Assad, que está no poder a mais de 40 anos, reprimiu violentamente as manifestações, disparando contra civis e ocasionando quatro mortes. Os protestos então se intensificaram pelo país, dessa vez, pedindo a queda da ditadura. Isso, despertou repressões ainda mais violentas por parte do governo, dividindo o país entre os chamados “rebeldes” e os que apoiam o domínio de Al Assad, dando inicio então a Guerra Civil Síria.

No início de 2014, após três anos de conflito intenso, o Estado Islâmico (ISIS) expandiu a área de domínio do Iraque para a Síria, conquistando boa parte do território e agravando ainda mais a situação no país. Os Estados Unidos, tentando conter o avanço dos terroristas, formaram coalizão com países europeus e começaram a lançar ataques aéreos em áreas civis dominadas por forças do ISIS. O completo caos foi instaurado no país, provocando a morte de mais de 400 mil pessoas segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), e a migração para países vizinhos e para a Europa, originando “Crise dos refugiados”.

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Refugiados da Síria atravessam a fronteira com a Turquia; aproximadamente 1000 pessoas chegaram ao país em 24h

Estima-se que hoje, sejam mais de 4 milhões de refugiados e esses números não param de crescer. Entre os dados do maior genocídio atual da humanidade, escondem-se as faces de pessoas que, raramente, são notadas: crianças. Elas compõem a maioria dos refugiados, vêm de todas as partes da Síria, chegam ao refúgio órfãs da travessia no Mar Mediterrâneo – quando não morrem com a família à deriva. Um exemplo é o caso do menino sírio-curdo Aylan Kurdi, de três anos, que morreu afogado na travessia da Grécia para a Turquia.

As imagens de Aylan morto na praia correram o planeta em setembro de 2015, causando impacto e voltando os olhos do mundo para os horrores da guerra e as principais vítimas. Tal comoção durou semanas, quando a frequência de posts em redes sociais e comentários sobre o assunto foram gradativamente diminuindo até cair, novamente, no esquecimento.

Desde então, vez ou outra, a comunidade internacional é pega de surpresa com imagens chocantes da Síria, crianças, por vezes, sozinhas e cobertas de sangue e poeira parecem denunciar um horror invisível no cotidiano. As imagens parecem resgatar a humanidade, por vezes, perdida quando o apoio a milhões de refugiados é negligenciado diariamente nas fronteiras, sobretudo, da Europa.

Tal comportamento remete ao conceito de Homem Cordial’ – homem que age com o coração motivado pelo decorrer das situações – do historiador Sérgio Buarque de Holanda. Recentemente, ao se reunir com a primeira cúpula da ONU sobre os refugiados, o Presidente dos Estados Unidos Barack Obama citou a carta de um americano de seis anos.

Ele pediu para que Omran Daqneesh, o sírio de cinco anos coberto de poeira e com sangue no rosto, sentado numa ambulância, fosse morar com eles. Na intenção de tocar os líderes mundiais presentes a abrir as fronteiras para os refugiados, entretanto, os Estados Unidos estabeleceram um limite de 10 mil refugiados por ano, o que não é nem um terço de 1% do total de migrantes.

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Paradoxalmente, ao mesmo passo que imagens das crianças mortas ou em situação de miséria parecem resgatar a humanidade da comunidade internacional, também evidenciam desumanidade nessa exposição. Tal fato denota perda de sensibilidade ao serem compartilhadas a exaustão. Muitas vezes, o mundo se esquece de se colocar na situação de família, amigos e conhecidos que terão que se deparar com o ente exposto.

Em editorial recente, o jornal americano The New York Times, escreveu que Anne Frank, hoje, é uma criança síria, fazendo um paralelo com a situação da menina judia em busca de abrigo na segunda guerra e das crianças sírias em busca de refúgio atualmente.

Muito se discute a questão dos refugiados. Alegam-se que fatores como crise, economia, moradia e emprego são empecilhos para a abertura das fronteiras. Porém, todos esses escondem xenofobia e indignação seletiva da comunidade internacional frente à situação de crianças e refugiados sírios em geral. O ser humano, mais uma vez, age com cordialidade frente ao caos desde que ele esteja distante dos olhos ou das redes sociais, ele não nos afeta, não nos comove.

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Em 1992, a banda Legião Urbana lançou a música Canção do Senhor da Guerra, parte da coletânea Músicas para Acampamento, com letra forte. O eu lírico da canção narra o modo como são recrutados soldados e o decorrer da guerra, encerrando com uma estrofe que é repetida diversas vezes: “o senhor da guerra não gosta de crianças”.

Talvez, não exista, hoje,  frase que melhor defina a situação atual da Síria e do mundo, com milhares de crianças em situação de risco, vivendo em meio ao caos dos senhores da guerra que bombardeiam por todos os lados, trocando cada vez mais tiros, abrindo portas da indústria armamentista por todos os lugares e fechando suas fronteiras para que os “efeitos colaterais” de sua crueldade continuem sendo negligenciados.

Mais de 70 anos se passaram desde a segunda guerra mundial e 20 anos desde que o Legião Urbana lançou “Canção do senhor da guerra”. Entre todos os dados, Annes, Omrams, Aylans e outros milhares, uma coisa é perceptível: não importa a época, o senhor da guerra, de fato, não gosta de crianças.

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