Marcela Temer e o discurso do retrocesso

Por Ester Cezar

O Projeto Criança Feliz, criado no governo do Presidente Michel Temer (PMDB), tem como embaixadora a primeira-dama, Marcela Temer. Tem o objetivo de dar assistência à primeira infância – gestação aos 3 anos de idade – e abarca crianças assistidas pelo Bolsa Família.

O jornal Estadão mostrou que o projeto tem orçamento de R$300 milhões e contará com participação de profissionais da área da saúde, serviço social, educação, justiça e cultura. Como madrinha, Marcela discursou na quarta feira (5) como mostrou o portal online UOL. Tal discurso traz questionamentos sobre a real importância do Criança Feliz, o papel da mulher na sociedade e o assistencialismo profissional como filantropia. O vídeo está disponível aqui.

Além de fazer um discurso com tom completamente instrutivo, professoral, engessado e artístico, há frases de Marcela que precisam ser pontuadas e discutidas. “Meu trabalho será voluntário para sensibilizar e mobilizar setores da sociedade em torno de ações que possam garantir melhoria na vida das pessoas”, pontua.

Mas o que há de errado nisso? De acordo com nota publicada pelo Conselho Federal de Serviço Social (CFESS), ela resgata problemas históricos superados com muita luta pela categoria, como conservadorismo e primeiro-damismo. Neles, assistência social não era considerada direito e política pública, mas ato filantrópico de mulheres das camadas sociais mais altas. Elas ajudavam voluntariamente sem preparo profissional. Tal fato indica enorme retrocesso, o qual não leva em consideração políticas sociais, estudos socioeconômicos e profissionalização das categorias envolvidas.

O estudante de serviço social da Universidade de Brasília (UnB) João Pedro Queiroz critica o projeto. “O programa é uma medida que, se fosse destinada visando um projeto, de fato, como política pública, seria ótimo. Os assistentes sociais participarão por serem empregados do governo e não poderem se recusar a participar, uma vez que estão inseridos no emprego”, afirma.

Outro trecho interessante que merece destaque é quando Marcela fala sobre o instinto maternal. “O que nós, mães ,percebemos instintivamente tem sido comprovado pela ciência. Nós, pais, cuidadores, influenciamos de forma decisiva a criança nos seus primeiros anos de vida”, alega.

Aqui, evidencia-se despreocupação com quebra de pensamentos conservadores incumbidos às mulheres e mães. O papel de cuidar das crianças e o reforço do termo “instintivamente” desconsidera que não são todas as mulheres que nascem com instinto materno. Fica claro o desinteresse do Governo com questões que remetem ao patriarcado quando a questão é superá-lo, uma vez que buscam mantê-lo.

Na cerimônia de apresentação do projeto, não foi citada a participação de homens, apenas mulheres. “Devo dizer que a presença da Marcela como embaixadora visa, exatamente, incentivar as senhoras mulheres do país, autoridades. Seguramente, Marcela, um dia, vai convidar as senhoras primeiras-damas e as senhoras prefeitas municipais para estarem todas aqui em Brasília. Para que não fique apenas como um programa da União, mas que seja de toda a Federação, portanto, da União e igualmente de todos os Estados”, afirma o Presidente Temer.

Por fim, há o trecho em que Marcela fala a respeito do desenvolvimento infantil. “Cada vez que beijamos nossos filhos pequenos, que conversamos com eles; cada vez que os carregamos nos braços, que lemos uma história ou contamos uma canção de ninar, estamos ajudando seu desenvolvimento”, defende.

No entanto, para um bom desenvolvimento, crianças não precisam apenas de canções de ninar e historinhas, coisas que os pais, muitas vezes, não tem tempo para fazer. Elas necessitam de educação de qualidade, de creches com vagas e profissionais bem pagos, de sistema de saúde decente e capaz de atendê-las. Todavia, infelizmente, o Presidente não busca oferecer tais aspectos à população, sobretudo, com o Projeto de Emenda Constitucional (PEC) 241, que congelará despesas com saúde, educação e assistência social por 20 anos.

Gastar R$300 milhões com atividades já feitas ao passo que congela investimentos de áreas fundamentais ao desenvolvimento humano, principalmente o de crianças, retira gradativamente a evolução conquistada nos últimos anos nos campos já citados. Além disso, colocar uma mulher que discursa em tom emotivo e que não terá sequer uma função executiva tenta reenquadrar as brasileiras no campos mãe, esposa e dona-de-casa, mas sempre belas, recatadas e do lar, como retratou a Revista Veja.

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