A fantástica fábrica de padrões de gênero

Por Lorena Fraga

Recentemente, ganhou destaque na mídia o caso da “Escola de Princesas”, como mostra o jornal Estadão. Fundada em Uberlândia – MG, tem o objetivo de ensinar etiqueta e valores tradicionais a meninas de 4 a 15 anos, segundo a fundadora Nathália de Mesquita. Com duração de três meses, o “Vida de Princesa”, um dos principais cursos da escola, trabalha temas como identidade, etiqueta, estética, relacionamentos e até orientação sexual. Numa sociedade onde se tenta cada vez mais desconstruir ideias retrógradas sobre padrões de gênero, é necessário discutir a validade da iniciativa, uma vez que os reforça.

Segundo a escritora e filósofa Simone de Beauvoir em O segundo sexo, “não se nasce mulher, torna-se mulher”. Nesse sentido, a ideia de mulher como se conhece – feminina, mãe, dedicada aos afazeres domésticos, esposa e permeada de padrões estéticos – é construída ao longo da vida. Tal fato se dá quando a menina, desde o nascimento, é apresentada a estereótipos como “rosa é cor de menina, azul é cor de menino”, “garotas são sensíveis” e “moças devem ser comportadas e recatadas”, por exemplo.

Tais frases só reforçam e embasam a desigualdade de gênero. Desde a década  de 1970, com a ascensão do feminismo a partir do anticoncepcional, essa vem sendo tema de debate com grandes esforços das mulheres para serem combatidos e desconstruídos. Através dos avanços civis e no meio social para combater o sexismo, uma escola com a proposta de formar “princesas” causa estranheza e choque.

Essa reação se deve pelo fato de reforçar ideias sobre como a mulher que é feita apenas para o seio familiar em garotas ainda em fase de formação de caráter e identidade. Ademais, ajuda a impor padrões de beleza – muitas vezes, cruéis –, uma vez que dá aulas de maquiagem  em vez de estimular nas alunas aceitação do próprio corpo sem submetê-las a padrões estéticos desde o fim da infância.

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Cena do filme Pequena Miss Sunshine, no qual a protagonista, Olive Hoover, participa de um concurso de beleza ainda criança.

Apesar da proposta contraditória, ela faz sucesso e, agora, com apoio da apresentadora do SBT e filha de Silvio Santos, Silvia Abravanel, que irá abrir um filial em São Paulo. De acordo com ela, em entrevista recente ao portal Ego, o objetivo da escola é “tirar a vulgaridade das meninas”, devolvendo-lhes a “Essência feminina”.

Segundo a psicóloga e psicanalista Cristina Silveira, a proposta, além de não se sustentar, tendo em vista que, dificilmente, as alunas se tornarão princesas, ainda é distante da realidade das meninas, como noticiado pelo portal Uai. Isso ocorre porque, atualmente, elas não associam a imagem da princesa a serviços domésticos, a situações cotidianas como trocar pneu furado ou até mesmo enfrentar turno de trabalho de doze horas.

Além disso, reforça-se o chamado “Complexo da Cinderela”. Tal fenômeno ocorre quando há crença por parte da menina de que vai ter sempre alguém que a proteja e a sustente. Ele faz com que mulheres passem a vida assombradas por uma criança interior que as faz esperar um príncipe encantado, tal qual ocorreu com Cinderela. Consequentemente, gera medo e insegurança por causa do príncipe que nunca chega. As mulheres que sofrem desse complexo se subestimam, autossabotam e se menosprezam.

Ao contrário do Brasil, no Chile, um curso oferecido pela Casa de Cultura da cidade de Iquique, tem uma oficina de “desaprincesamento”, como noticia o portal Hypeness. Nela, aprendem defesa pessoal e carregam o slogan de que “nenhuma mulher precisa de um príncipe para ser feliz”. Assim, refletem sobre papeis de gênero e empoderam garotas desde cedo, estimulam visão crítica sobre a posição da mulher na sociedade, desconstroem estereótipos de beleza e mito do amor romântico permeado por contos de fada e filmes da Disney.

Em sociedades onde se morre apenas por ser mulher, as populações ainda ficam horrorizadas com casos de feminicídio, como os de Lúcia Pérez, na Argentina, como mostra o portal Huffpost Brasil, e Louise Ribeiro, no Brasil, tal qual analisou o SOS Imprensa. Garotas sofrem assédio ao andar na rua e têm medo de um iminente estupro. Dessa forma, é necessário repensar os valores passados para as crianças, uma vez que serão o futuro da sociedade. Há de se querer, de fato, reforçar um ideal que tanto se tenta combater no meio civil e social atualmente?

Separar crianças por padrões de gênero retrógrados e reforçá-los nelas é plantar uma semente que continuará dando frutos podres do patriarcado, como machismo, misoginia, relacionamentos abusivos, feminicídios, estupros, assédios, os quais tanto se abomina e tenta combater. É permear a ideia de uma fantástica fabrica onde reforçam tais padrões e excluem o ser humano em sua essência individual que transcende rótulos e padrões sociais.

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