No fim do dia, uma criança só precisa de amor

Lorena Fraga para o SOS Diversidade

O que diferencia o ser humano de outros animais é o fato de possuir alma e cérebro inteligível. Dessa forma, desde os primórdios, humanos convivem entre si numa relação que vai além de interesses de troca e sobrevivência e carregam, também, cunho afetivo e imaterial. Nesse sentido, criou-se o conceito de família. Atualmente, a Constituição Federal de 1988 define família como união entre homem e mulher. Por causa desse conceito retrógrado e excludente, muitos casais homoafetivos ou lesboafetivos ainda encontram dificuldades na hora de realizar o processo de adoção.

No Brasil, uma brecha na lei de adoção ocorreu em 2009 quando o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) mudou o padrão da certidão de nascimento do tradicional “pai e mãe” para o termo “filiação”. Tal fato abriu precedentes para o registro de crianças por casais do mesmo gênero.

Por ser tão recente, o assunto ainda gera dúvidas, debates, medos e, principalmente, preconceitos. Por isso torna-se necessário questionar: até que ponto é válido permitir que o preconceito interfira na vida de uma criança? Vale lembrar que ele impõe barreiras para a adoção.

Um dos principais contra-argumentos para a adoção de crianças por casais LGBTTT é a de distúrbios psicológicos. Uma vez que não se pode distinguir as figuras de pai e mãe – como acontece em famílias heteronormativas – a criança, desenvolveria distúrbios causados pela ausência de uma dessas figuras e por uma suposta confusão causada pela sexualidade das mães ou pais. Tal argumentação é infundada, já que não há estudo que comprove que crianças criadas por casais homoparentais, tenham crescido com algum tipo de sequela ou distúrbio, independe.

A professora de psiquiatria da Universidade da Virginia, Charlotte Petterson, diz que filhos de casais homoafetivos se desenvolvem da mesma maneira que crianças de pais heterossexuais. E mais: tendem a ser mais tolerantes e a ter mais liberdade de expressão, uma vez que não sofrem tanto com estereótipos de gênero.

Além disso, estudos na área da psicologia dizem que o desenvolvimento da criança não depende do tipo de família, mas do vínculo estabelecido entre eles, como mostra a revista Superinteressante. “Afeto, carinho, regras: essas coisas são mais importantes para uma criança crescer saudável do que a orientação sexual dos pais”, diz a psicóloga e autora do livro Adoção por Homossexuais – A Família Homoparental Sob o Olhar da Psicologia Jurídica, Mariana Farias em entrevista ao veículo.

Dessa forma, a tese de que crianças são afetadas pela sexualidade dos pais é infundada. “Para elas, não tem distinção se são dois homens ou duas mulheres, o que importa nessa fase são os estímulos  bons que ela recebe”, diz a estudante do quarto semestre de psicologia da Faculdade Pitágoras de Londrina, no Paraná, Thais Schiavon, de 19 anos.

Segundo a Escola de Direito da Universidade da Califórnia, 1 milhão de LGBTTT (lésbicas gays, bissexuais, transexuais, travestis e trangêneros) criam 2 milhões de crianças nos Estados Unidos. Ademais, 14 milhões de crianças e, todo mundo convivem com um dos pais gays. André Lodi é filho da primeira lésbica no Brasil a fazer reprodução assistida e viralizou nas redes sociais, em 2016, ao participar do programa Altas Horas, da Rede Globo. Nele, provou, com respostas consistentes, que crianças vindas de lares não-heteronormativos não se diferenciam de outras.

Ademais, 52% dos casais homossexuais estão dispostos a adotar órfãos e a maioria tem interesse em minorias étnicas – os que têm mais dificuldades em serem adotados. Negar um lar a essas crianças sobre preceito de religião, homofobia e intolerância é negligenciar amor, afeto e carinho a seres que, muitas vezes, passarão a vida num orfanato sem referência familiar.

Essa decisão pode ocasionar traumas e distúrbios. Isso se deve ao fato de que a família – reconhecendo-a como um núcleo formado por pessoas que se amam e se querem bem, independente de gênero ou sexualidade – é de fundamental importância na vida de qualquer ser humano.

De acordo com a revista já citada, outros mitos contra a adoção como, influência na sexualidade da criança, abusos sexuais e preconceito na escola e na sociedade também se invalidam devido a fatos como:

  • A maioria esmagadora de gays provém de lares heterossexuais. Assim como a heterossexualidade não se “pega” como algum tipo de gripe, a homossexualidade também não
  • Uma pesquisa, realizada por três pediatras americanas, avaliou o caso de 269 crianças abusadas sexualmente, apenas dois agressores eram homossexuais. “Homens homossexuais não tendem a abusar mais sexualmente de crianças que heterossexuais”, a Associação de Psiquiatria Americana esclarece.
  • No ambiente escolar e social, diferenças como peso, altura, cor da pele podem virar alvo de piadas. Uma pesquisa da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas com quase 19 mil pessoas mostrou que 99,3% dos estudantes brasileiros têm algum preconceito. Entre as ações de bullying, a maioria atinge alunos negros e pobres. Em seguida, vêm preconceito contra homossexuais. Felizmente, isso não é sentença para uma vida infeliz. Pesquisas que comparam filhos de gays com filhos de héteros mostram que os dois grupos registram níveis semelhantes de autoestima, de relações com a vida e com as perspectivas para o futuro.

A sexualidade de alguém pode interferir no afeto, tratamento e amor por um filho – seja ele adotivo ou não – uma vez que o amor fraterno, que envolve lealdade, igualdade e mútuo benefício, além de dedicação. Esse difere do amor Eros, o qual representa o amor sexual, carnal, repleto de paixões inebriantes, a pura atração física, que manifesta o instinto de união e reprodução.

Impor conceito de “família tradicional”, formada por homem, mulher e filhos, é restringir e excluir famílias formadas por avós e netos, tios e sobrinhos, mãe e filho e outros núcleos que carregam o mesmo amor e cuidado necessários à existência da família. Moral não tem a ver com sexualidade, mas com formação do ser e do caráter.

Negar ou dificultar adoção de crianças por casais homoafetivos e lesboafetivos com respaldo de argumentos preconceituosos e ultrapassados difere de proibir dois adultos de realizarem tal processo de acolhimento. Na verdade, é impedir uma criança de ser amada por uma família a qual, independente da formação, oferece o que, muitas vezes, o Estado negligência: estabilidade financeira, ensino de qualidade e, principalmente, amor.

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