Maestro do poder: como Eduardo Cunha (PMDB) orquestrou a política brasileira

Por Lorena Fraga

Em 29 de Setembro de 1958, despontava para o mundo uma das figuras políticas mais emblemáticas da atualidade: Eduardo Cosentino da Cunha, mais conhecido como Eduardo Cunha. Nascido na Barra da Tijuca – RJ e descendente de imigrantes italianos, Cosentino – como era conhecido na escola – sempre foi aluno aplicado, introvertido e estudioso, sem muitos amigos, mas com boletim que ostentava notas acima da média.

Mais de 40 anos depois de se formar no Ginásio Irã, o jovem tímido e aplicado se tornou uma das principais figuras políticas brasileiras e protagonizou noticiários de jornais em manchetes que parecem roteiro de uma série policial. Réu no Supremo Tribunal  Federal (STF) pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, Cunha iniciou a carreira política em 1988, quando se candidatou a deputado federal. Porém, antes disso já figurava na vida pública.

Foi presidente da empresa fluminense de telecomunicações (Telerj), em 1991, durante o governo Collor. Por apoiar ferrenhamente o presidente impeachmado, ganhou no Sindicato dos Trabalhadores em Telecomunicação o apelido de Collorido. “Um Collorido na presidência da Telerj” estampava o cartaz que pedia sua saída. Devido a esse fato e à recusa em negociar com sindicato perdas salariais provocadas pelos planos Bresser e Verão, bastou um ano de gestão Cunha para que trabalhadores antecipassem um coro familiar atualmente: “Fora, Cunha!”.

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Em 1993, teve fim a carreira na companhia de telecomunicações. Ele foi exonerado após o escândalo de superfaturamento durante implantação da telefonia celular no Rio de Janeiro. Nesse ponto, começava uma carreira marcada por escândalos e truculência. O deputado Chico Alencar (PSOL- RJ), adversário do peemedebista, contou ao portal BBC Brasil que, vindo de classe média, Cunha ingressou na política com objetivo claro de ascensão social. Anos após adentrar na vida pública, parece ter atingido o objetivo; tornou-se um dos homens mais poderosos do país, com uma fortuna de milhões vinda de origem duvidosa.

Segundo o jornal O Globo, em 2008, após uma de suas filhas reprovar na baliza, o examinador do Departamento de Trânsito do Rio de Janeiro (Detran – RJ) Antônio Antunes Coimbra foi alvo dos métodos de Cunha. A jovem de 18 anos entrara na vaga sem ligar a seta e saiu dela com freio de mão puxado. Coimbra foi acusado por ele de induzi-la ao erro. Assim, sofreu a ira do então deputado e foi punido com 30 dias de afastamento, sem vencimento, e afastado dos exames. Até hoje, tenta recorrer à decisão sob alegação de falta de provas.

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Em maio, Glauber Braga (PSOL- RJ), também em entrevista a BBC Brasil, acusou-o de ser o mentor por trás das manobras do atual Presidente Michel Temer (PMDB). Não só ele, mas o sindicalista Paulinho da Força, líder do partido Solidariedade, diz que 180 dos 513 deputados federais seguem Cunha, o que equivale a um terço da Câmara do Deputados. No entanto, notícias recentes mostram que seus aliados estão abandonando-o por medo de que os resquícios de seus atos venham sobre eles caso Cunha resolva delatar.

“Nunca vi Cunha recuar”, afirmou um aliado, o deputado federal Carlos Marun (PMDB-MS) na Câmara, depois da prisão do ex-Presidente da Casa. De fato, nunca recuou. Mesmo quando vivia sob pressão de eventual julgamento e cassação, ainda se utilizava de manobras.

Em via de ser julgado, aprovou abertura do processo de impeachment contra a então Presidente Dilma Rousseff (PT), o que adiou por meses seu processo de cassação. Após o impeachment, quando se viu encurralado, renunciou. Antes da renúncia, fez apelo para que caso ele fosse a julgamento, os deputados o julgassem com isenção. Entretanto, nunca a possuiu, já que declarava abertamente ser inimigo do PT e acusava o mesmo de ser a raiz dos problemas da corrupção no país.

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Corrupção foi uma palavra que acompanhou Cunha durante a carreira. Em 1999, no comando da Companhia Estadual de Habilitação do Rio (Cehab) viu-se como principal acusado de um escândalo de corrupção que envolvia a empresa. Todavia, acostumado a manobras ardilosas, apresentou documentos do Ministério Público (MP) com assinatura falsificada. Mais tarde, garantiu ser um dos denunciantes, arquivando, assim, o processo contra ele.

Após a renúncia, em entrevista, Cunha fez uma declaração. “Não foram os meus erros que levaram a minha cassação, foi uma vingança política”, disse. “Só temer a Deus”, completa. Saiu da Câmara com promessa de escrever livro sobre o impeachment. De acordo com a Revista Veja, relatou que seria conhecido por derrubar dois presidentes, bradando ameaças como “Hoje, sou eu. É o efeito Orloff: Vocês, amanhã”. Esse é uma referência ao slogan de uma propaganda de vodka da década de 1980, que dizia: “Efeito Orloff: Eu sou vocês amanhã”.

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Após a prisão, a Justiça mandou bloquear seus bens, num valor estimado em mais de R$200 milhões. Entretanto, como mostra a Revista Fórumencontraram os cofres vazios. Cunha, mais uma vez, driblou as leis e a Justiça e mostrou ser senhor de si e do deus a quem é temente: ele próprio.

Caso fossem repatriados, quanto desses R$200 milhões poderiam ajudar a cobrir dívida pública e gastos sociais? Não só esses, mas todo o dinheiro desviado do país no escândalo da Petrobras? Seria necessária a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 241 para congelar gastos públicos durante 20 anos se, durante esse tempo, se controlasse a corrupção e a participação de políticos como Cunha na vida pública? São fatos a se pensar.

Além disso, quem tanto ditou a música que a política brasileira dançava, como disse o sindicalista Paulinho da Força, agora se vê com trilha sonora cantada por Cazuza. Em O Tempo não para, o cantor entoa:

“A sua piscina está cheia de ratos, tuas ideias não correspondem aos fatos”

“Mas se você achar que eu to derrotado, saiba que ainda rolam os dados, porque o tempo não para”

“Dias sim, dias não, eu vou sobrevivendo sem nenhum arranhão”

Contudo, como diz a música, “o tempo não para”. Ele é implacável e, como lembrou a ex-Presidente Dilma em recado deixado no quadro de sua sala na presidência da república: A história não os perdoará.

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