Lobotomia educacional

Melissa Duarte para o SOS Diversidade

A educação brasileira vive um momento bastante delicado. Tal fato se deve ao Projeto de Lei (PL) 193, isto é, Escola Sem Partido, à Medida Provisória (MP) 746 –  reforma curricular do ensino médio – e à Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 55, a qual limita o teto dos gastos públicos por 20 anos. Em meio a tantas mudanças, o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) é aplicado neste fim de semana. Jovens de todo o país se preparam há meses ou até anos para transformar o curso e a universidade dos sonhos em realidade. Contudo, qual preço se paga por isso?

Escola, cursos pré-vestibulares, livros, exercícios e provas. Noites de sono ou de diversão se convertem em horas de estudo. Paga-se muito, não só financeiramente. A sociedade, que, muitas vezes, prega meritocracia, desconsidera que o acesso à educação não é universal e igualitário no Brasil apesar de ser um direito garantido pela Seção I do Capítulo III da Constituição Federal de 1988.

Além disso, muitos jovens sofrem de ansiedade, estresse e gastrite. De chá-mate, passam para café e, dele, para pílulas de cafeína. O estômago adoece tamanha a quantidade diária da bebida. Ademais, estresse faz com que a adrenalina se acumule nos músculos, assim, o corpo dói. Dopa-se o organismo com analgésicos e anti-inflamatórios como se remédios o tornassem imbatível, indestrutível, como analisa o jornal El País. No entanto, a verdade é que só disfarçam os sintomas; as dores físicas e da alma permanecem latentes.

Ansiedade e estresse combinados por muito tempo levam, por exemplo, à queda de cabelo, frustração, problemas musculares, fadiga, exaustão física e mental. Esses fatores minam o desempenho, mas são causados pelo fato de estudantes buscarem ficar acordados e atentos para estudar cada vez mais.

Faltam válvulas de escape e sobram matérias para decorar mais do que aprender. O sistema de ensino brasileiro é bastante defasado. Não se ensina a pensar, a estudar, a aprender. De fato, o conhecimento se torna cada vez mais mecanizado e com pouco espaço para liberdade, criatividade e participação ativa dos alunos. Colégios, muitas vezes, se transformam em fábricas de humanos robotizados que absorvem e passam a reproduzir o que ouvem e leem, com pouco senso crítico.

Criticam-se fortemente a Escola Sem Partido (PL 193) e a reforma do ensino médio (MP 746), lançadas pelo Governo Temer, como mostram o jornal Folha de S. Paulo e a revista Carta Capital. A primeira prega a retirada de posicionamentos políticos e ideológicos da sala de aula em vez de promover ensino de versões e pontos de vista distintos em prol do debate. Já a segunda visa flexibilização do currículo, mas acaba por torná-lo mais técnico, uma vez que sociologia, filosofia, artes e educação física passar a ser optativas e há incentivo ao ensino integral.

No entanto, a realidade é que ambas já se encontram parcialmente em curso. Matérias que deveriam estimular o pensamento crítico, como filosofia e sociologia, tem carga horária inferior à necessária e o ensino delas se dá a partir de um viés histórico. Autores são apresentados através de escolas de pensamento e em ordem cronológica. Poucos de seus textos são leitura obrigatória; em vez disso, lê-se o que foi escrito acerca das obras. Nem sempre há um debate posterior para construção própria e crítica do conhecimento.

Além disso, as ocupações estudantis em colégios, institutos e universidades públicos brasileiros lutam contra a aprovação da reforma do ensino médio e a PEC 55. De acordo com secundaristas, ambas levam ao sucateamento da educação caso entrem em vigor. De fato, com o corte nos investimentos educacionais previstos por essa PEC, não é possível implantar e manter o ensino integral com qualidade, tal qual defende a MP 746. Protestos em apoio ocorrem em diversos locais do Brasil, a exemplo do que noticia o G1.

Os métodos de seleção das universidades, tais quais Programa de Avaliação Seriada (PAS), vestibular e ENEM, refletem esses fatos. Cobra-se uma ampla gama de saberes as quais, infelizmente, não refletem o potencial e a inteligência dos estudantes. Tem melhor desempenho, entretanto, quem conhece a banca examinadora e as melhores estratégias de prova. É fundamental, inclusive, o bem-estar físico e mental dos candidatos, mas o sistema acaba por minar a saúde deles.

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