O fazer jornalístico na literatura e no cinema

Por Melissa Duarte

O livro Hiroshima, de John Hersey, publicado originalmente em 1946 na revista The New Yorker, e o filme Spotlight – Segredos Revelados (2015), escrito e dirigido por Tom McCarthy, retratam exímios exemplos de jornalismo. Hersey se vale do jornalismo literário enquanto McCarthy, do investigativo. Entretanto, os dois se mostram extremamente bem apurados e investigados.

O primeiro relata a vida de seis hibakushas, isto é, pessoas afetadas pela explosão da bomba atômica em Hiroshima, Japão. Numa narrativa minuciosa, sem arroubos dramáticos, contida, intensa e forte, o autor escolhe se distanciar ao máximo do texto, uma vez não o carrega de emoção. Dessa forma, além de não atuar como mediador, humaniza as vítimas ao dar voz a seis delas.

Há conexão entre as histórias dos sobreviventes – Reverendo Kiyoshi Tanimoto, Hatsuyo Nakamura, Dr. Masakazu Fujii, Padre Wilhelm Kleinsorge (posteriormente, Makoto Takakura), Dr. Terufumi Sasaki e Toshiko Sasaki, os últimos sem parentesco – e seus desdobramentos. A leitura descritiva da vida dos hibakusha provoca sentimentalismo, empatia, solidariedade e engajamento em quem lê.

A linguagem de Hersey preza intensamente por objetividade e clareza, para que se busque a verdade jornalística, sem ambiguidade ou lacunas para dúvidas, e haja entendimento pelo maior número de pessoas. Evitam-se, desse modo, figuras de linguagem, adjetivos, gerúndio experimentação textual e elipse.

Leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, compreensão, proporcionalidade, equilíbrio, multiplicidade se mostram muito presentes nessa grande reportagem. Valoriza-se a informação obtida em detrimento da estética do texto. Ademais, há brevidade, simplicidade e corte de palavras desnecessárias.

O segundo trata a investigação promovida por jornalistas do jornal The Boston Globe sobre casos de abuso sexual e de pedofilia cometidos por padres da Igreja Católica e acobertados pela instituição. No decorrer do filme, notam-se claramente faro noticioso e investigativo, crescimento da história, fontes incomuns e inovadoras, busca incessante por documentos, construção de banco de dados.

Além disso, verifica-se rastro de responsabilidade ao provar que pedofilia é problema sistemático da Igreja, não casos isolados. Isso tudo ocorre através do trabalho em conjunto para elaborar relatórios, pesquisa, entrevista e equipe, além de ter tempo e recursos necessários e em meio ao Jornalismo de Indignação.

As técnicas de apuração são muito bem aplicadas e consistem em entrevistas presenciais (com ou sem bloquinho) com vítimas, policiais, clero e advogados, além de consulta a clippings e documentos oficiais. Reverificação de dados e aspas são essenciais, devido ao fórum público e à gravidade do tema. Muitas vezes e por diversos motivos, entrevistados se recusaram a dar entrevistas. A equipe do jornal, dessa maneira, utilizou vários métodos de convencimento: insistência, tirar a fonte da zona de conforto e chantagem – negociação de reportagem e suborno.

Em ambos, apuração é ponto central, importantíssimo. Tal fato se deve ao forte compromisso social com a verdade jornalística. Essa é obtida por meio de fatos relevantes, comprovados e checados e gera contrato com a sociedade, uma vez que há interesse e fórum público e a intenção, a finalidade é informar leitores para que sejam livres e formem impressões e opiniões próprias. Há independência dos jornalistas em relação às fontes e ao governo.

Além disso, contribuem para a construção da memória social e jornalística. A intenção é documentar e divulgar horrores da bomba de Hiroshima e a pedofilia cometida por padres católicos. Detalhes tornam o material – entrevistas e pesquisas extensamente apuradas, com diferentes personagens e fontes – acervo para consulta histórica.

Por último, precisão na grafia ou fala, nos dados, nas citações e nas informações estabelece confiança entre fontes, leitores e jornalista(s), além de lhe(s) dar grande credibilidade. Por isso, imparcialidade – mito jornalístico – é meta a ser sempre almejada e a utiliza contra distorção e manipulação dos fatos. Nesse Jornalismo de Verificação, portanto, não se acrescentam informações, aspas ou se enganam o público. Há transparência sobre métodos e razões da reportagem.

Não se deve, portanto, negar a importância de Hiroshima e Spotlight – Segredos Revelados para a sociedade e os efeitos que as histórias retratadas provocaram em suas épocas. Ambos trazem grandes ensinamentos sobre jornalismo, tais como apuração, investigação e compromisso com a verdade.

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