A espetacularização do luto

Por Lorena Fraga

Em 29 de Novembro de 2016, o Brasil acordou com a notícia de uma grande tragédia no meio esportivo. Naquela madrugada, o avião que transportava a delegação do time de futebol Chapecoense para Medellín, Colômbia, sofreu pane seca, isto é, ficou sem combustível e caiu, matando 75 das 81 pessoas a bordo. Em meio às notícias que chegavam a todo o momento, com informações sobre corpos e estado de saúde dos feridos, a mídia usufruía sem pudor do luto no País para alavancar audiência nos mais diversos meios.

De manhã, Matheus Saroli, filho do técnico Caio Júnior, uma das vítimas, foi bombardeado de perguntas por uma equipe do canal SportTV, que o aguardava na porta do condomínio onde mora com a família. Ainda sem confirmação da morte do pai, Saroli mal conseguia se expressar e teve a dor exposta aos telespectadores do programa. A Rede Globo reprisou a matéria.

Enquanto isso, a jornalista e apresentadora Fátima Bernardes, durante o programa Encontro com Fátima Bernardes ligava ao vivo para parentes das vítimas. Tal fato abriu caminho para diversas explorações de luto ao longo do dia. À tarde, enquanto a apresentadora Sônia Abrão, do programa A tarde é sua, da Rede TV, recebia um suposto vidente que teria previsto a tragédia, o programa Vídeo Show, da Rede Globo, reproduzia à exaustão matérias sobre as vítimas. Entrevistados visivelmente abalados e em luto pela morte dos colegas entravam no ar em frequentes chamadas ao vivo nesse programa. Tal sensibilização pareceu não tocar seus apresentadores, que faziam comentários de gosto duvidoso entre as matérias.

O guia “Covering Trauma” do Radio for Peacebuilding Africa (RFPA), desenvolvido pela jornalista multimídia independente especializada em reportagem pós-conflito, Jina Moore, fornece dicas para realizar entrevistas em situações difíceis e estruturar a matéria. Os objetivos são proteger as vítimas e não “sensacionalizar” a violência, além de explorar o papel de agente social do jornalismo ao ajudar comunidades a se recuperarem após o trauma. Uma leitura válida, já que a busca ávida pela notícia não deve suplantar a dor de quem é afetado pela tragédia.

Um exemplo de apuração e reportagem humanizadas é a sensível entrevista da jornalista Patrícia Poeta com Ana Carolina de Oliveira, mãe de Isabella Nardoni, de 5 anos, em 2008, alguns dias após a tragédia, quando ela aceitou falar com um veículo de TV — no caso, o Fantástico, da Globo. Patrícia, a todo momento, durante os mais de 20 minutos de entrevista, respeita o tempo e as pausas de Ana, além de fazer perguntas sensíveis que, em nadam ultrapassavam os limites da mãe que acabava de perder a filha.

O portal Catraca Livre publicou uma série de matérias sensacionalistas no dia da tragédia. Uma delas convidava os leitores a verem fotos de pessoas momentos antes de morrerem. Dentre as imagens, uma foto dos jogadores da Chapecoense antes de embarcar no voo para Medellín. A empresa de produtos esportivos NetShoes, subiu o preço da camisa do time de R$159 para R$259, o que causou diversos protestos nas redes sociais. Tal fato fez a empresa lançar nota com pedido de desculpas assim como fez o Catraca Livre, após perder mais de 30 mil seguidores em menos de um dia, na sua página do Facebook.

Em contraponto, logo cedo já se espalhavam correntes no WhatsApp e demais redes sociais, pedindo para que não compartilhassem fotos dos corpos das vítimas em respeito à família. Um grande avanço nas mídias sociais, já que, em 2015, após a morte do cantor Cristiano Araújo e da namorada Alana Rodrigues, várias fotos e vídeos foram espalhadas pela rede, sendo necessária a intervenção da justiça para proibir a veiculação.

Em tempos de informação instantânea, a mídia, quando se depara com uma grande fatalidade como a da Chapecoense, vê-se despreparada conforme ultrapassa a linha tênue entre cobertura informativa e apelo desmedido e usam o luto para gerar audiência. Muitas vezes, desrespeitam família e amigos das vítimas, uma vez que exploram a dor e a mascaram com pretexto de informação.

Dessa forma, é válido questionar: até que ponto a cobertura de um fato trágico deixa de ser informativa e passa a se tornar uma banalização da dor? Isso ocorre porque a repetição exaustiva de imagens e entrevistas sobre o caso anestesia o telespectador e o faz perder sensibilidade diante do ocorrido?

Com a consolidação da internet, não só como fonte de informação, mas também como ferramenta para a produção e a disseminação de conteúdo, mudou-se o modo de fazer jornalismo, o que provocou um questionamento sobre o comportamento da mídia. A prática sensacionalista dos meios transforma notícias em objetos de espetacularização e supervaloriza aspectos emocionais em detrimento da informação. Consequentemente, comove a opinião pública, principalmente quando imagens de pessoas mortas são veiculadas. Como por exemplo, a imagem do menino sírio Aylan Kurdi, 3, morto afogado na praia enquanto tentava fugir com a família da guerra civil no Síria.

A imagem de Aylan correu o mundo e chocou diversas nações. Entretanto, com a repetição exaustiva não causou impacto igual ao da primeira vista. Segundo a colunista do jornal The Guardian, Suzanne Moore, muitos críticos argumentam que, num mundo saturado de imagens e informações, aquelas que deveriam ser importantes têm efeito reduzido: as pessoas se tornam insensíveis. Inundados por notícias que, no passado, chocavam e causavam indignação, perde-se a capacidade de se sensibilizar.

Diante disso, é necessário pensar: Precisa-se, de fato, compartilhar exaustivamente imagens de crianças sírias mortas e feridas para sensibilizar o mundo com a situação delas em meio à guerra civil síria? Precisa-se explorar a imagem de inocentes para perceber que é necessário medidas para conter um conflito sangrento? Precisa-se colocar jornalistas para entrevistar, sem o menor respeito, parentes de vítimas de uma catástrofe assim que recebem a notícia a fim de saciar a sede de informação? Se a mídia ainda se utiliza de tais práticas, é porque há prazer em consumi-las.

O dicionário de Oxford elegeu “pós-verdade” como a palavra do ano. A expressão  diz respeito a circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menor importância do que crenças pessoais. Talvez, seja uma boa palavra pra definir o campo político de 2016, mas fica a sugestão de “palavra do ano” para praticar em 2017: empatia.

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