Repórteres também choram

Por Daniele Brandão

Para mim, é sempre muito complicado ver pessoas chorarem, não importa a circunstância. Possivelmente, qualquer coisa que eu fale pode piorar a situação. Nós temos a mania de dar pitacos no sofrimento dos outros quando, às vezes, mal sabemos lidar com o nosso… E eu me considerava quase insensível, devido a acontecimentos particulares de outros tempos. Isso, até a última terça-feira (29).

Fui dormir às 3h — acordei às 8h, no susto, com a ligação de um amigo falando sobre a queda do avião que levava a delegação da Chapecoense até Medellín, na Colômbia. Pensei que era mentira, mais um desses hoaxes idiotas que pessoas sem noção espalham pela internet, mas a curiosidade levou à confirmação.

O choque do dia veio na forma dos jornalistas Galvão Bueno, Luiz Ernesto Lacombe, Ana Paula Araújo e Chico Pinheiro em clima pesadíssimo. Eu nunca tinha visto Galvão tão triste, nem uma profusão tão grande de notícias incertas. Àquela hora, quando eu ligara a televisão, o jogador Neto havia sido o último resgatado. Até então, eram quatro atletas e o jornalista Rafael Henzel vivos, sendo que o goleiro Danilo morreria horas depois.

Então, fui para o Twitter ver o andamento e me deparei com um tuíte de um jornal falando que 21 jornalistas de diversos veículos estavam no voo. Este é um hábito relativamente comum entre clubes de futebol no Brasil: levar equipes das emissoras licenciadas para fazer a transmissão de uma final de Libertadores ou Sul-Americana, como era o caso da Chapecoense.

A coisa ficou ruim quando eu li um dos nomes. “Meu Deus, o Deva não.” Eu ouvira Deva Pascovicci tantas vezes pela CBN entre 2011 e 2015… Nem tive a oportunidade de dizê-lo que ele era um cara maneiro e que eu adorava quando ele dizia “Prepare-se!” com aquela voz que fazia a turma apelidá-lo de Pavarotti. … “Victorino? Mário Sérgio? Não é possível!”

A insensibilidade foi embora. Quando você acompanha e se apega a um profissional, essas coisas desmontam sem pena, pois ele passa a fazer parte da sua vida — e eram meus colegas ali, eu conhecia o trabalho de quase todos. Futuramente, ao trabalhar no ramo, esperava dividir experiências com eles, em comum ou não.

O passar das horas foi tão estranho… Foi muito desagradável ver o ex-jogador de futebol e comentarista Denílson chorar ao vivo na Band, dor igual com o comentarista Sílvio Luiz na RedeTV e ainda pior com também comentarista Mário Marra na ESPN. A homenagem ao fim do Jornal Nacional, os #90minutosdesilêncio na Fox Sports… E, no Jornal Hoje de quinta-feira (1º), o lamento do repórter Ari Peixoto me derrubou.

Acho que estamos acostumados a ver — ou melhor, construir uma fantasia de — jornalistas como seres frios, incapazes de demonstrar emoção e desprovidos de qualquer humanidade. E, quando um repórter chora durante uma matéria ao vivo, é difícil definir a sensação. Afinal, o que queremos? Quem está ali, na cara da notícia, nunca escapa de ser tocado por ela. Os parceiros de trabalho vão fazer muita falta para eles, sem dúvida.

Quantos puderam abraçar os colegas antes do fim? Quantos dos mortos tiveram tempo de dizer que amavam as pessoas mais queridas? Vai muito além de refletirmos sobre a efemeridade da vida. Nós sempre acreditamos que nosso lamento é mais importante, mas, quando a dor alheia nos atinge, não dá para ter certeza de algo, principalmente quando quem está sofrendo é aquele que o dever da profissão faz trazer a informação. “Cara a cara! Cara a cara!” Por instantes, eu quis pensar que fosse mentira.

Em memória de toda a delegação da Associação Chapecoense de Futebol, dos tripulantes do voo 2933 da empresa LaMia e dos colegas da imprensa abaixo nomeados:

Ari Júnior, cinegrafista da Globo
André Podiacki, repórter do jornal Diário Catarinense
Bruno Mauri da Silva, técnico da RBS
Devair Paschoalon, o Deva Pascovicci, narrador da Fox
Djalma Araújo Neto, cinegrafista da RBS
Douglas Dorneles, repórter da Rádio Chapecó
Edson Ebeliny, repórter da rádio Super Condá
Fernando Schardong, narrador da rádio Chapecó
Gelson Galiotto, narrador da rádio Super Condá
Giovane Klein Victória, repórter da RBS
Guilherme Marques, repórter da Globo
Guilherme van der  Laars, produtor da Globo
Jacir Biavatti, comentarista esportivo da RIC TV
Laion Espíndula, repórter do Globo Esporte
Lilacio Pereira Jr., coordenador de transmissões da Fox
Mário Sérgio Paiva, comentarista da Fox
Paulo Clement, comentarista da Fox
Renan Agnolin, repórter da rádio Oeste Capital, de Chapecó
Rodrigo Santana Gonçalves, repórter cinematográfico da Fox
Victorino Chermont, repórter da Fox

Imagem de capa: Reprodução/TV Globo

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