O machismo como patrão

Por Tamires Mendes

Relações machistas e patriarcais no mercado de trabalho ainda são um grande desafio da sociedade brasileira e o tabu vem desde a escolha profissional. Apesar de todo o trabalho realizado por organizações, como a ONU Mulheres, e coletivos de empoderamento feminino, vê-se que alguns continuam a cometer erros arcaicos na sociedade.

Em 27 de abril de 2015, a ONU Mulheres lançou o relatório Progresso das Mulheres no Mundo. O documento descreve que direitos econômicos e sociais das mulheres são limitados porque são forçadas a viver em “um mundo masculino”. Pesquisas realizadas por essa instituição mostram que, em média, os salários delas são 24% inferiores aos dos homens em função igual. Essa problemática é mundial: “As mulheres continuam recebendo em todo o mundo um salário diferente pelo mesmo tipo de trabalho”.

Além da faixa salarial, o ato de aplicar gêneros à determinada profissão é corriqueiro. Esse machismo vem desde a qualificação profissional, dentro de universidades. São comuns relatos de mulheres estudantes que passam por situações constrangedoras, de assédios a agressões que alegam sua incapacitação, por parte de colegas e professores, principalmente em cursos de maioria masculina.

No mercado de trabalho, diariamente, o machismo é multifacetado. Há casos de mulheres não serem contratadas devido a uma possível gravidez e a empresa ter que arcar com licença-maternidade. Ademais, algumas começam a passar situações de assédio moral em entrevistas de emprego.

Muitas profissões são sexualizadas, como as de secretária e de enfermeira, e as profissionais acabam por sofrer assédio. A desvalorização vai além do quesito salarial: muitas vezes, são vítimas de comentários que as qualificam como não capacitadas para o bom desempenho da função. No entanto, infelizmente, essas humilhações culminam em impunidade. Afinal, cargos e integridade física são colocados em risco a partir do momento que a vítima se posiciona contra. Além disso, a sociedade trata com descaso essas abordagens e coloca a culpa na mulher.

No Brasil, esse tipo de humilhação vem tendo grande visibilidade midiática. Em alguns casos, as vítimas vêm sendo agredidas em suas redes sociais por uma parcela da população que ainda se prende a uma estrutura patriarcal do mercado de trabalho e da sociedade em si.

Segundo imagens retiradas do programa Masterchef, da Band, pelo portal Huffpost Brasil, na última edição, a chefe de cozinha Dayse Paparoto foi inferiorizada diversas vezes pelos concorrentes e, muitas vezes, motivo de chacota. Apesar de ter sido silenciada por companheiros de equipe que a mandaram limpar chão quando tentou avisá-los que a prova estava errada e não ter sido considerada à altura dos demais, foi vencedora.

Pouco depois de Dayse, um escândalo relacionado a uma empresa de móveis carioca estourou nas redes sociais. Após a empresa Alezzia Móveis fazer campanha publicitária apelando para sexualização feminina e receber diversas críticas pela objetificação feminina, passaram a responder críticas com mensagens extremamente machistas.

Dentre essas, um funcionário respondeu o comentário de uma jovem designer com o argumento de que mulheres não são qualificadas para desenvolver funções na área dela e a desafiou a conseguir abaixar as avaliações da loja no Facebook para 1,1 até janeiro. Caso conseguisse, ganharia R$10 mil em produtos na loja. Ela declarou que os reverteria em doações a ONGs de empoderamento feminino. Em contrapartida, a loja afirmou uma quantia em doações à entidade AACD se não fossem tão baixas.

Mais uma vez, o machismo foi mascarado por um bom propósito, numa “ação desastrada de marketing digital”, tal qual mostra a revista Fórum. A página da empresa foi saturada por comentários sexistas, machistas, gordofóbicos e agressivos direcionados a quem estivesse contra as ações da loja.

Em 23 de Dezembro, a repórter do canal Warner e youtuber Carol Moreira relatou o assédio que sofreu por parte do ator Vin Diesel durante entrevista realizada na Comic Con Experience 2016. Segundo o portal G1 e um vídeo que Carol gravou e colocou em sua entrevista, o ator a interrompeu várias vezes com comentários relacionados à beleza.

Muitos foram taxados com elogio pelo fato de o ator não ter usado palavras de baixo calão. O constrangimento dela é perceptível em toda a entrevista. No entanto, buscando ser profissional, prosseguiu com o trabalho na medida do possível. Carol foi agredida por milhares de usuários do Facebook e teve a acusação deslegitimada.

Apesar disso, diversos veículos midiáticos internacionais, como os tabloides britânicos Daily Mail e The Sun, se posicionaram contra a conduta do ator e prestaram total suporte à Carol. O site Metro questiona em sua matéria o motivo pelo qual as pessoas insistem em achar o ocorrido normal. O canal Warner ainda não se posicionou sobre o caso.

O caso se mostra semelhante ao que aconteceu em maio, no qual o cantor MC Biel assediou uma jornalista durante entrevista. Houve repercussão judicial, todavia, o jovem foi defendido com o argumento de que a atitude era natural dele e que era muito jovem para responder processo por assédio. A jornalista em questão foi demitida, como mostra o jornal Correio Braziliense.

As origens e evidências do machismo no mercado de trabalho são explícitas. É perceptível que, quando se trata de assuntos com repercussão midiática, as providências se baseiam ao show business. Isso tem um espectro diante de outros setores do mercado. O fato de uma mulher continuar a ser minimizada e objetificada em sua jornada profissional é comum e a consequência de não se calar perante um assédio é o julgamento popular.

Esse tabu deve ser quebrado a fim de impedir a perpetuação da cultura do estupro em todos os segmentos sociais. Mulheres devem ser ouvidas e asseguradas profissionalmente em vez de serem menosprezadas e punidas por ações machistas dos opressores.

É perceptível a omissão diante esses casos ocasionadas pelo medo. Existe, na sociedade, uma falha ideia de que casos de assédio deixam de ser graves devido à forma que ocorrem. Mulheres se silenciam diante esses absurdos por medo de críticas como as voltadas à Carol, por exemplo, muitos comentários dizendo que ela exagerava ou se promovia para ganhar fama acompanhadas de ofensas.

Nenhum tipo de assédio deve ser considerado ameno. Em todos os casos, o agressor deve ser punido e a vítima preservada e acompanhada psicologicamente, uma vez que certos comportamentos tendem a deixar traumas. É importante, também, ponderar que indivíduos sem preparo profissional não têm direito de ilegitimar e oprimir uma vítima de assédio. A culpa nunca é da vítima e discursos morais são incabíveis em qualquer hipótese.

Publicidade

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s