Como nossos pais…

Por Lorena Fraga

Quase três meses após as eleições presidenciais dos Estados Unidos, o candidato eleito, Donald Trump, tomou posse em 20 de janeiro e se tornou o 45° presidente da nação. Com campanha recheada de polêmicas e discursos que beiram ao fascismo, poucos acreditavam que Trump iria chegar à Presidência de uma das maiores potencias globais. No entanto, na última sexta-feira, o mundo, incrédulo, presenciou sua cerimônia de posse.

Em sua primeira fala como presidente, o republicano trouxe discurso carregado de nacionalismo, o que abriu brechas para comparação e aproximou ainda mais sua imagem a de uma das figuras mais temidas da história contemporânea: o ditador Adolf Hitler. Enquanto do alto de um palanque montado no Capitólio o presidente bradava o slogan de campanha prometendo uma nova era onde a América voltaria a ser grande, uma pergunta ecoava silenciosa: como alguém com discursos radicalistas, por vezes racistas, misóginos e xenófobos ganhou tamanho poder e voz na sociedade atual?

Durante os últimos anos, os Estados Unidos se recuperaram da crise de 2008 com a economia figurando entre as mais sólidas dos países ricos. O país viveu uma época de grande prosperidade durante o Governo Obama (2009-2017). Entretanto, nem todos desfrutaram dos bons tempos dos últimos anos.

A população residente em áreas rurais no decadente cinturão industrial, de classe média ou média baixa, viu a abertura comercial dos EUA favorecer consumidores e trabalhadores com diploma universitário. Enquanto isso, foram expostos à competição dos baixos salários de China e México. Para essa parcela da população, o magnata representa a voz que há muito tempo desejam ter e são eles que compõem a maior parte do eleitorado de Trump.

O fascínio e a identificação que esses discursos despertam nessa parcela da população e a facultatividade do voto nos Estados Unidos o alçaram ao poder. Apesar da mobilização de artistas e pessoas influentes nas mídias sociais e na imprensa, o título de homem mais poderoso do mundo lhe pertence, o que preocupa não só setores econômicos da sociedade americana, como também a sociedade civil. Ao passo que Donald Trump destila nacionalismo com “America great Again” (América grande novamente), eles se lembram de Hitler nazistas com o slogan igualmente nacionalista “Deutschland über alles” (Alemanha acima de tudo).

Dados econômicos e sociais podem ajudar a entender e até chegar a justificar a ascensão de Trump ao poder. Já a história, essa, não perdoa. O holocausto e os horrores promovidos pelo líder da Alemanha nazista foram o capítulo mais sombrio da história da humanidade até então, sendo suficiente para que ideais semelhantes aos de Hitler sejam rechaçados pela sociedade. Dar voz a um líder que, mesmo em menor escala, remeta a tais ideais, é repetir um erro imperdoável.

Para o pensador romano Cícero, a história era a “mestra da vida”, ou seja, por meio do passado, com exemplos de sofrimentos, sucessos, tragédias e grandes feitos das gerações anteriores, podem-se extrair lições para orientar o presente diante dos problemas. Dessa forma, por que, apesar de todo o progresso tecnológico e acesso a informação que a geração atual possui, erros do passado vêm sendo cometidos? Golpes de Estado, guerras sanguinárias, nacionalismo exacerbado, palavras que eram para compor apenas páginas de livros de história, figuram nas manchetes dos jornais no presente. Onde estão os erros?

A palavra “história” tem em seu radical “histor”, palavra grega que significa testemunho. Será que as narrativas contadas em nossos livros de história se tornaram estórias, não passando assim de fábulas? Será que querem nos colocar à prova e viver o que aqueles que vieram antes de nós, nossos pais, nossos avós, viveram? E só assim acreditar em seus testemunhos?

Recentemente, o artista israelita, Shahak Shapira, ganhou os sites de notícias com o projeto Yolocaust, onde ele recria selfies são tiradas no Memorial do Holocausto, em Berlim, e substitui o fundo por campos de concentração. As imagens chocam não só pelas fotos de milhares de judeus mortos e amontoados ao fundo, mas, principalmente, pelo fato de turistas fazerem caras e bocas para as fotos. Uns chegam a sorrir como se estivessem diante de uma bela paisagem, provocando uma reflexão: estamos caminhando para o futuro nos esquecendo de nosso passado?

O nacionalismo de Trump pode não chegar ao extremo como o de Hitler, mas o mal que ele tem potencial de causar é igual apenas vestindo novas embalagens de falso patriotismo. É importante entender que a linha entre nacionalismo e patriotismo é tênue. Ao passo que o último é o amor e orgulho de uma nação, o primeiro é a crença de que uma nação é soberana a todas as outras. Esse, quando em doses altas, gera xenofobia, uma das principais causas de guerras sanguinárias e mortes ao redor do planeta. Num mundo onde há o maior número de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial, não pode haver espaço para esse sentimento.

Em 1976, a cantora Elis Regina, um dos grandes nomes da música popular brasileira, lançava o álbum Falso Brilhante o qual tem como maior sucesso a música Como nossos pais. Nela, Elis canta que sua maior dor é perceber que, “apesar de termos feito tudo, quase tudo, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”.

Talvez, a dor ao assistir à posse de Trump e ao olhar o cenário político-social do mundo atualmente é perceber que, mesmo tendo feito tudo, chegado a lugares inimagináveis como a Lua, avançado tanto que quebrou barreiras do tempo com uma comunicação na qual mensagens levam instantes para chegar, continuamos iguais.

Trump representa não só o retrocesso da América como também materializa o retrocesso de uma geração que, apesar de ter visto tudo, conhecido quase tudo, ainda é igual e comete os mesmos erros dos pais.

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