Universidade para quem?

Por Lorena Fraga

Um polêmico caso de discriminação entre o professor de medicina da Universidade de Brasília (UnB) João Alexandre Gonçalves e seus alunos causou enorme burburinho na comunidade acadêmica. Publicada pelo jornal Metrópoles, a matéria relata que o docente, além de segregar cotistas, os constrangia ao afirmar que não estariam qualificados para o curso. Ademais, orientava-os a procurar cursos mais fáceis, já que, no seu entendimento, estariam à altura deles.

Apesar da gravidade das acusações, o caso foi pouco repercutido, o que banaliza um ato que parece comum nas grandes universidades. Os casos de abuso, tanto moral como sexual, no meio acadêmico se tornaram tão frequentes que, em dezembro de 2014, foi instaurada uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), na Assembleia Legislativa de São Paulo. De autoria do deputado estadual Adriano Diogo (PT-SP), a “CPI do Trote”, como é popularmente conhecida, tem o intuito de apurar violações aos direitos humanos dentro das universidades.

A CPI apurou a ocorrência de mais de 100 casos de estupro na Universidade de São Paulo (USP), uma das melhores da America latina. Em 2015, vieram à tona denúncias de assédio numa tradicional festa de medicina, também da USP. Segundo o estudante Allan Brum, a ideia da festa era promover um jogo de abuso moral onde o objetivo era fazer os calouros desistir. Frases como “Vai embora, cotista!”, “Quem aqui é negro?”, “Quem aqui é viado?” eram proferidas a todo momento para constranger e diminuir graduandos pertencentes às minorias.

O surgimento das universidades brasileiras se deu com a chegada da corte portuguesa ao Rio de Janeiro mais de 300 anos após o descobrimento das terras tupiniquins. A educação no Brasil já nasceu com berço na distinção social. Portugueses proibiam a instalação de universidades na colônia, o que gerou resistência à ideia de projeto de ensino. Tal fato ocorre, principalmente, porque, naquele período, a elite mandava os filhos para a Universidade de Coimbra, em Portugal. O passado histórico evidencia um pensamento enraizado até hoje na sociedade: o ensino é para as elites.

Reconhecida como um dos ofícios mais nobres, a medicina sempre teve como característica, profissionais advindos das castas mais altas da sociedade em sua maioria. Até o final de década de 1950, na Era Vargas, o ensino era privatizado e caro, poucos tinham a chance e o privilegio de se tornar médicos. Tal fato mudou com a federalização das universidades, o que propiciou o início do ensino superior público.

Atualmente, com a gratuidade do ensino superior e a lei de cotas, a educação pública caminha para a inclusão de alunos, até então, sem acesso à graduação. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), mais de 150 mil negros ingressaram na universidade por meio de cotas desde 2012.

O meio acadêmico cede espaço, mas episódios como o do professor João Alexandre Gonçalves evidenciam que, apesar de conquistarem cada vez mais espaço no ensino superior, o elitismo sussurra para estudantes de baixa renda que aquele espaço, como no período colonial, continua não lhes pertencendo.

Buscar independência numa educação com resquícios coloniais é tarefa árdua que jovens periféricos enfrentam diariamente. Distância entre casa e faculdade, grade horária que pode impossibilitar um estágio remunerado para cobrir gastos com a graduação, material acadêmico e até mesmo preço da alimentação mostram-se obstáculos para eles.

Polêmica e bastante discutida, a lei de cotas divide opiniões. Ela promoveu a inclusão de estudantes negros e de origem pobre no ensino público. Para alguns, oriundos das melhores e mais caras escolas do país, essa inclusão pode causar estranheza, revolta e até desconforto.

Dividir espaço de uma educação privilegiada com quem teve uma vida ceifada de privilégios é encarar efeitos colaterais da marginalização social que ocorre desde o fim da escravidão no País. Uma convivência que, muitas vezes, expõe a discriminação social no Brasil.

Em outubro de 2016, uma página nas redes sociais intitulada “Bastardos da PUC-Rio” ganhou os noticiários ao contar casos de discriminação na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). Num dos depoimentos, uma ex-aluna de relações internacionais relata o que sofreu. “Ué, você é pobre? E bolsista? Eu não sabia que a PUC misturava o tipo de gente que estudava relações internacionais, ate porque é um curso que exige inglês né…”, ela ouviu de uma colega.

Apesar de causar revolta e originar vários debates, o caso não foi suficiente para conscientizar e provocar mudança. Imerso em seus privilégios, o professor da UnB se une aos estudantes de medicina e da PUC-RJ. Esse fato evidencia que a marginalização de negros e pobres não acaba com o ingresso na universidade. Pelo contrário, continua e é praticada por outros professores e discentes e reflete a sociedade em que não quer viver.

Recentemente, o governo Temer, tentou aprovar na câmara uma emenda constitucional a qual permitiria às universidades públicas a possibilidade de cobrar mensalidade em cursos de extensão e pós-graduação, por se tratar de emenda à Constituição, que alterava o artigo 206- que prevê a gratuidade do ensino- o texto precisava do apoio de 308 deputados, mas apenas 304 votaram a favor, não aprovando a emenda. PEC permitiria cobrança em modalidades específicas. Essa proposta, de certa forma, endossa a postura do docente na tentativa de elitizar o espaço acadêmico.

Em 2016, estudantes ocuparam escolas e universidades em protesto contra a, agora aprovada, PEC 55, que corta gastos na educação e saúde. Em meio a frases de protesto, o grito de ordem “ocupar e resistir” era entoado. Talvez, poucas palavras representem tão bem o papel dos alunos periféricos na comunidade acadêmica que, além de ocupar o espaço das elites, precisam, sobretudo, resistir a limites e barreiras que lhes são impostos.

Ilustração de Grazi Jardim

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