Crédito: Reprodução/Facebook/White House

A era de Trump

Por Ana Carolina Fonseca 

No Twitter – meio de comunicação mais usado por Donald Trump –, o Presidente dos Estados Unidos fez ameaça discreta à imprensa. O magnata sugeriu que poderia alterar leis de difamação porque, segundo ele, o “falho” jornal The New York Times “desgraçou o mundo da mídia” e teria publicado mentiras sobre Trump por dois anos.

tweet trump

“O falho @nytimes desgraçou o mundo da mídia. Erraram comigo por dois anos inteiros. Mudar leis de difamação?”, em tradução literal.

Ainda durante a campanha, o então candidato à Presidência alegou que iria “abrir as leis de difamação para quando eles escreverem propositalmente artigos negativos e horríveis e falsos, nós podermos processá-los e ganhar muito dinheiro” (tradução nossa). Trump tem histórico de não cumprir promessas de campanha, mas o mais preocupante desse tipo de declaração no líder estadunidense é a frequência com que ataca a imprensa. Para ele, mídia só merece respeito quando segue a narrativa que ele propõe.

Nos Estados Unidos, pelas leis atuais, é difícil vencer um processo de difamação, uma vez que o acusador deve provar que a informação divulgada é falsa, que ela prejudicou a reputação e que a fonte agiu com malícia. Noutras palavras, deve-se comprovar que o escritor sabia que a informação era falsa ou que agiu com “descuido imprudente”.

Segundo o próprio The New York Times, que reagiu ao tuíte de Trump, o Presidente não tem poder de mudar leis de difamação, porque são estaduais. Portanto, elas dependem de cortes locais. Seria necessário criar uma emenda constitucional ou que a Suprema Corte dos Estados Unidos – equivalente ao Supremo Tribunal Federal (STF) brasileiro –derrubasse uma legislação anterior que limita o controle dos estados. A maior chance de Trump ainda é pequena: nomear juiz que derrube a lei.

A escolha de Trump para o cargo vago na Suprema Corte, o juiz Neil Gorsuch, foi aprovada pelo Congresso na última sexta-feira (7), após manobra da ala republicana. Durante as sabatinas, poucas semanas atrás, Gorsuch indicou ser favorável às atuais leis de difamação.

Este é apenas um dos episódios recentes de conflito entre Trump e imprensa. O Presidente assumiu o cargo há menos de três meses, em 20 de janeiro, mas já tem longa história com a mídia. Durante anos, foi uma mistura de empresário de sucesso e celebridade excêntrica.

Na trilha da campanha presidencial, sofreu dura oposição dos maiores veículos de comunicação – com a notável exceção da Fox News. Com isso, começou a adotar um discurso de que seria perseguido na mídia. Desde então, o relacionamento da Casa Branca com a mídia tem sido mais conturbado do que em qualquer outro período da história dos Estados Unidos.

Fatos alternativos

Poucos dias após a posse, o novo porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer, deu um dos discursos mais controversos dos últimos anos. “Essa foi a maior audiência que já testemunhou uma posse, ponto. Tanto pessoalmente quanto em volta do globo”, afirmou. Na realidade, imagens aéreas mostram que a recepção de Trump, em Washington, estava vazia, principalmente em comparação com o primeiro dia de Obama, em 2009.

A primeira coletiva de imprensa ocorreu quase um mês após o magnata assumir o cargo. Em 17 de fevereiro, o Presidente passou 77 minutos com repórteres de inúmeros veículos. O motivo oficial do encontro era a nomeação do novo secretário do trabalho, Alexander Acosta, mas preferiu focar em outro assunto: mídia.

A principal notícia do dia foi o embate entre Trump e o repórter da CNN Jim Acosta – sem grau de parentesco com o possível ministro. O repórter tentou várias vezes fazer uma pergunta ao Presidente, que respondeu apenas com “You are fake news!”. “Você é notícia falsa”, em tradução literal. Depois disso, a expressão passou a compor o vocabulário quase cotidiano de Trump, principalmente na conta pessoal no Twitter.

Em fevereiro, o porta-voz da Casa Branca cancelou de última hora uma coletiva de imprensa. O anúncio tradicional foi substituído por um briefing longe das câmeras – e para o qual só alguns veículos foram convidados. Entre os excluídos estavam a CNN, NY Times, Politico e BuzzFeed News.

Trump pode não ter um poder real de censurar a mídia. Afinal, os jornalistas presentes na coletiva exclusiva até fizeram perguntas elaboradas pelos colegas expulsos. Além disso, a internet torna quase impossível conter informações, verdadeiras ou falsas. Mas o Presidente dos Estados Unidos deixou bem claro que quer controlar informações, verdadeiras ou falsas. Ou, como ele e sua equipe preferem falar, “fatos alternativos”.

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