Baleia Azul: como notícias falsas e sensacionalismo podem influenciar a realidade

Por Melissa Duarte e Sandra Silva

Nota da editora: este texto trata sobre depressão e suicídio e contém spoilers sobre a série Os 13 porquês (2017), da Netflix.

Suicídio é um tabu na mídia, uma vez que o noticiamento de casos isolados pode encorajar outras pessoas a tirar a própria vida. Além disso, o mercado de fake news – notícias falsas, em português – vem crescendo em todo o mundo, já que a fantasia da verdade e o sensacionalismo geram muita audiência e publicidade e, consequentemente, lucro. Somados, esses fatos justificam o grande burburinho em torno do fenômeno da Baleia Azul.

Supostamente, o jogo consistiria em 50 desafios diários, designados por um moderador. Eles iriam desde evitar noites de sono a suicídio até situações de alta adrenalina e automutilação. Ao aumentar gradativamente os níveis de dificuldade, o objetivo seria desestabilizar emocionalmente o jogador. Caso abandonasse as tarefas, estaria sujeito a ameaças e poderia ser coagido a voltar ao desafio.

O desafio da Baleia Azul teria surgido na mídia social VK da Rússia – equivalente ao Facebook – em 2015 e se espalhado para o Ocidente no início de 2017, através de portais ingleses pelos quais viralizou. Quando chegou ao Brasil, o alvoroço midiático elevou rapidamente sua notoriedade. Assim, o debate se intensificou dentro e fora da internet.

No entanto, de acordo com o psiquiatra Daniel Martins de Barros, em seu blog no Estadão, o jogo Baleia Azul é uma notícia falsa. A pesquisa do site de confirmação de boatos Snopes mostra que não há provas suficientes de que suicídios foram causados pelo jogo – a maioria ocorreu na Rússia e é difícil apurar informações no leste europeu; ademais, segue uma estrutura clássica de história, o que ajuda a convencer leitores. Dessa forma, houve exploração de um tema que é gatilho para muitas pessoas em prol do lucro obtido por cliques e anúncios nas matérias.

A descoberta, porém, não muda o fato de que as mortes, infelizmente, aconteceram. Se não foram causados pela Baleia Azul, qual o motivo? Na realidade, o número de suicídios entre adolescentes cresce mundialmente e, infelizmente, ainda não há explicação. Por isso, a partir desse ponto, é importante um olhar mais sensível e aprofundado sobre a questão. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), somente acidentes de trânsito matam mais jovens do que suicídio.

Esses dados existiam antes do jogo Baleia Azul surgir nos noticiários, o que leva a pensar que o problema vai além da má influência digital. Também de acordo com a OMS, 121 milhões de pessoas têm depressão no mundo e o Brasil lidera a lista dentre os países emergentes. Mais que um jogo ou uma notícia falsa, trata-se de uma questão de saúde pública. A depressão assola a humanidade e o debate deve se expandir.

É essencial conversar sobre suicídio. A imprensa brasileira cobriu com afinco e continua a apresentar os desdobramentos do caso, como o portal BBC. Ademais, muito se discutiu sobre a segurança do acesso de jovens à rede sem supervisão de adultos. Porém, além de informar, a mídia possui papel conscientizador e deve ter ciência do seu impacto na sociedade.

No entanto, o maior agente social deve ser, de fato, a família. Além de outros transtornos psicológicos, a sociedade se encontra permeada por depressão, estresse e ansiedade – excessos de passado, de presente e de futuro – e esses são problemas globais. Sobram tecnologia, facilidade no acesso à informação e interações digitais e faltam diálogo, acolhimento, tratamento médico e psicológico e conscientização.

Quase simultaneamente ao jogo da Baleia Azul, o lançamento da série Os 13 porquês, baseada no livro homônimo, também trouxe o debate à tona. Original da Netflix, a produção conta a história da estudante Hannah Baker, que tirou a própria vida. Antes, gravou 13 fitas para o colega Clay Jensen, uma para cada motivo e episódio. Com foco nos adolescentes, a série se passa no ambiente escolar e retrata realidades que, infelizmente, podem ser vividas nele, tais quais misoginia, bullying e abuso sexual.

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Os 13 porquês (2017)

A adaptação divide opiniões. É aclamada por fãs e tem Selena Gomez como produtora executiva – a também atriz é diagnosticada com transtorno de ansiedade e depressão, sofreu com o vício em drogas e passou por clínicas de reabilitação. Ao mesmo tempo, a série recebe inúmeras críticas sobre banalização do suicídio e por ter exibido detalhadamente a cena da morte de Hannah no último capítulo.

Apesar de exibir aviso de gatilho e um documentário sobre impactos que a série pode provocar, o episódio infringe o contrato implícito da mídia de não representar, seja visual ou graficamente, esse tipo de morte, a fim de não encorajar tais ações no público. Além disso, a partir da estreia de Os 13 porquêso CVV – Centro de Valorização da Vida recebeu 100% a mais de relatos de jovens que cogitavam suicídio. Há quem acredite que a série os inspirou a procurar ajuda. Contudo, a teoria mais plausível é a de que a obra tenha influenciado quem já cogitou findar a própria vida.

Retratar casos isolados pode influenciar quem cogita tirar a própria vida – tal como a onda suicida na Europa após a publicação do livro Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe, em 1774. Supõe-se que os leitores se identificaram com o sofrimento do protagonista, o qual não podia consumar seu amor mesmo que correspondido. Apesar de todos os dados e documentação histórica, o chamado “efeito Werther” ainda não possui comprovação científica.

Até que ponto o lucro gerado com notícias sensacionalistas e séries televisivas deve estar acima das possíveis mortes que poderão ocorrer? Por que, apesar de todas as provas, não se afirma que a publicização de suicídios, sem dúvida, incita outros a acontecerem? Por outro lado, é muito positivo que os meios de comunicação usem o jogo e a série como meio de alerta aos pais sobre o que os filhos podem consumir e realizar na internet.

Silêncio mata. Apenas diálogo, compreensão e tratamento podem prevenir o suicídio. Em caso de depressão e/ou pensamentos suicidas, é muito importante procurar ajuda. O CVV – Centro de Valorização da Vida atua na prevenção ao suicídio de forma gratuita, anônima e sigilosa. Pelo site, é possível entrar em contato via chat, skype e e-mail. Há postos de atendimento em todo o Brasil (lista aqui) e o telefone é 141.

Capa por Kallyo Aquiles

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