[Editorial]: Jornalismo também faz greve?

Na sexta-feira (28), ocorreu uma greve geral em todo o País. Professores, aeroviários, motoristas e cobradores de ônibus, lojistas e diversas categorias de servidores públicos, dentre outros trabalhadores, amanheceram de braços cruzados. O SOS Imprensa acompanhou a cobertura das imprensas nacional, local e internacional e traz um editorial sobre o dia em que 40 milhões de brasileiros paralisaram suas atividades, segundo dados dos organizadores do movimento.


Nacional

O SOS Imprensa analisou matérias do Jornal Nacional, da Rede Globo, e da Folha de S. Paulo. Ambos fizeram uma análise micro, e não macro acerca do movimento. Noutras palavras, mostraram grandes engarrafamentos e falta de transporte público em diversas cidades e esqueceram o foco: a paralisação contra as reformas trabalhista e da previdência do Governo Temer. Pouco foi apresentado sobre os desdobramentos e consequências desses projetos para a população, sobretudo das classes média e baixa.

Dos 41 minutos de Jornal Nacional, na sexta-feira (28), 23 foram dedicados à Greve Geral. É muito tempo se considerarmos que matérias telejornalísticas duram dois minutos, em média. No entanto, daqueles 23, apenas uma reportagem de três minutos explicava mudanças propostas pelas reformas trabalhista e previdenciária; outra, de dois, apresentava como a Globo cobriu o evento. Ademais, a edição do dia anterior não citou a greve durante seus 38 minutos. Por isso, foi justamente criticada.

Folha publicou diversas matérias e colunas sobre o tema durante o dia. Sobrou hard news, faltou um aprofundamento, com raras exceções. O editorial A greve e as reformas é uma delas. Traz uma visão mais ampla acerca do assunto, tão carente do bom jornalismo. A maioria das matérias não foge à regra das demais coberturas. É importante lembrar, entretanto, que matéria sobre trânsito e vandalismo em protesto todo jornalista faz, difícil é propor um novo olhar que traga o que os leitores, de fato, precisam saber.


Local

O SOS Imprensa analisou a primeira edição do DFTV e do Correio Braziliense, escolhidos por terem grande relevância na capital que é centro da política brasileira. Os dois pecaram na busca pela imparcialidade e no papel de informação da mídia, uma vez que ignoram o contexto geral e focam em fatos isolados. Essa cobertura refletiu a nacional, na qual noticiaram os problemas causados em vez das motivações e das consequências do ato do dia 28.

Dos 40 minutos de DFTV 1º edição de sexta-feira, 18 trataram sobre a paralisação. Uma matéria de oito minutos falou somente sobre a ausência de transporte público e o uso de piratas, além da determinação da Justiça de que 30% da frota operasse, conforme a lei. Além disso, o comentarista Alexandre Garcia falou sobre o assunto durante um minuto e meio. Com posicionamento claro, expressou opinião liberal-conservadora ao afirmar que trabalhadores foram coagidos a aderir ao movimento e que o ato deveria ter sido feito no feriado para não prejudicar. Esqueceu que o que atrapalha são as reformas.

A edição impressa do Correio Braziliense de sábado (29) trouxe capa sem muitas matérias, com grande ênfase nas fotos do protesto. A principal manchete é “Greve afeta transporte e termina em vandalismo”, o que destaca apenas uma pequena parte do que foi a greve. Reportagens online falaram sobre prejuízo para a economia brasileira e, mais uma vez, focaram na falta de metrô e ônibus e nos engarrafamentos.


Internacional

O SOS Imprensa analisou notícias de dois veículos internacionais: Agência Reuters e BBC. Ambas disseram que a greve da última sexta-feira (28) foi a primeira em décadas e abordaram o tema de maneira mais ampla e contextual. As causas da greve geral, a situação das reformas no Congresso e a forma como o governo está lidando com a crise são três grandes pilares das matérias.

A matéria da Reuters cujo título é “Manifestantes brasileiros, combate policial e a primeira greve geral em décadas” foi escrita para o público internacional entender, resumidamente, a situação política brasileira. Contextualizando as reformas como causas da greve geral, o artigo também relembrou a baixa popularidade do presidente Temer e como estão as votações das reformas no Congresso.

Os dois lados apareceram de forma equilibrada, as notas oficiais da Presidência e falas de manifestantes e líderes sindicais foram bem distribuídas. Um dos pontos de maior diferença em relação aos veículos nacionais foi o fato da agência ter destacado que a greve de sexta-feira foi a primeira em décadas.

reuters

Em tradução, “apesar dos protestos, Temer e os membros de seu governo de centro-direita afirmaram que a greve foi um fracasso” e “Membros de sindicatos disseram que a greve foi um sucesso ao destacarem milhões de trabalhadores de setores chave, como o automotivo, petroleiro, escolar e até bancário”.

Como um veículo também voltado para o mercado financeiro, a matéria destacou o impacto das greves nas empresas, principalmente de automóveis. A parte final diz que o movimento parou a produção na GM, Ford, Toyota e Mercedes, mas que o impacto na bolsa de valores foi pequeno.

O título “Brasil é atingido pela primeira greve geral em duas décadas” já dá o tom do texto da BBC. Com poucas aspas, a matéria foca no fator incomum de uma greve geral e na razão dela ter acontecido, como uma resposta às reformas propostas pelo governo Temer. A breve análise do repórter Daniel Gallas destaca que essa é a primeira manifestação em massa contra o Presidente, apesar da baixa popularidade e que, mesmo assim, ele está conseguindo aprovar as reformas no Congresso.

bbc

Em tradução, “essa tem sido a marca de sua administração: um presidente muito impopular nas ruas, mas capaz de fazer as coisas funcionarem no Congresso”.

A matéria também relembra os casos de corrupção que envolvem grande parte dos membros do Governo Federal e contextualiza o tamanho da crise do País, citando a alta taxa de desempregados. A partir disso, abre espaço para a fala do governo que afirma a necessidade de medidas de austeridade para superar a crise.


No geral, a sensação deixada pela cobertura da paralisação é a de que faltam análise, ir além dos fatos isolados, explorar todo o contexto. Quais impactos a greve pode ter na aprovação das reformas trabalhista e da Previdência Social? Um governo com somente 4% de aprovação consegue levar adiante dois projetos tão impopulares? Tais questões, infelizmente, não foram respondidas pela imprensa. Como escreve a ombudskivinna da Folha de S. Paulo, Paula Cesarino Costa, “na sexta-feira, o bom jornalismo aderiu à greve geral. Não compareceu para trabalhar”.

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