O sensacionalismo e o “male gaze” na imprensa

Por Ana Carolina Fonseca

Um texto jornalístico informativo deve ser escrito a partir das informações essenciais, que devem vir no início e ter mais destaque. Isso, todo estudante de jornalismo sabe. No entanto, esse princípio básico parece ter sido deixado de lado na matéria “Agefis e PM fecham prostíbulo em sobreloja de restaurante na Asa Sul”, publicada pelo portal de notícias Metrópoles. Uma das partes mais importantes do texto — e que, de certa forma, deveria guiar toda a matéria — ficou esquecida no último parágrafo, quase como uma observação de última hora.

O veículo descobriu o local, denunciou à Agência de Fiscalização do Distrito Federal (Agefis) e deu furo de reportagem com detalhes sobre o funcionamento da casa, além de grande destaque para as mulheres que trabalhavam no local. No final, explica: “A prostituição não é crime no Brasil”. O que é crime: mediar para uma pessoa servir a lascívia de outra, favorecer à prostituição, manter prostíbulo e rufianismo (aproveitar-se financeiramente da prostituição alheia).

Se prostituição não é crime, segundo a própria matéria, por que quase todo o texto foca nas mulheres que trabalham no local? Se o crime foi cometido pelos donos do estabelecimento, por que não falar sobre eles? Se o restaurante não tinha mais alvará para funcionamento, por que atendia normalmente? Não houve fiscalização?

O que explica é o sensacionalismo. Em tempos de internet, redes sociais, curtidas e cliques, o ângulo da prostituição parece muito mais chamativo. Também se pode atribuir a isso o vocabulário pomposo, que visa criar uma imagem na cabeça do leitor mas que tem pouca carga real de informação. Não precisamos saber se as mulheres da casa tinham “seios fartos e sorriso fácil” ou “vestido vermelho bordeaux colado ao corpo”. Aliás, esses termos mostram um julgamento de valor que não deveria ter espaço no jornal, ao menos fora das colunas de opinião.

Faltam entrevistas: com os agentes da Agefis, com especialistas no assunto. Salvo uma fala do garçom do restaurante, quase tudo no texto é a visão do repórter que estava lá. A visão de um homem, aliás. É o que teóricos poderiam chamar de male gaze, o modo como as artes visuais e a literatura descrevem as mulheres sob o ponto de vista dos homens, que as tratam como objetos do prazer masculino. O conceito foi criado pela crítica de cinema Laura Mulvey, em 1975.

Segundo a reportagem, frequentadores do estabelecimento ameaçaram processar o jornal se fotos deles fossem publicadas. E as mulheres que trabalhavam na casa, será que tinham essa opção? Essas fotos, sim, foram divulgadas; nenhum rosto aparece, mas junto a depoimentos e histórias relatadas, seria fácil para amigos e familiares reconhecerem as identidades.

Não se sabe o que aconteceu ou vai acontecer com os donos do local. Na legenda de uma foto, o jornal explica apenas que o responsável pelo local “foi notificado”. A reportagem não divulgou quais medidas penais poderiam ser tomadas apesar de o estabelecimento e o responsável terem cometido crimes. Não houve acompanhamento do caso com matérias posteriores. Talvez, porque o sensacionalismo esteja no agora, não nas consequências. Para os verdadeiros criminosos, anonimato e privacidade. Para as mulheres, pode-se imaginar o que ocorre: a elas, sempre fica reservado o julgamento da sociedade.

9 comentários sobre “O sensacionalismo e o “male gaze” na imprensa

  1. www.elearnportal.de disse:

    Conversando com pessoas que reverência muito na extensão de ensino
    (executivos de instituições estaduais e também federais), os mesmo citam que
    participaram de diversos reuniões sobre a criação dos cursos em nível de ciência…e que na era se criou a lei para suprir
    lacunas específicas de conhecimento com curto espaço de tempo
    (ex: ligamento ótica, telefonia traste…etc). http://www.elearnportal.de/wiki/index.php?title=A-Evoluo-Da-Lngua-Da-espanha-No-Brasil–j

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