O jornalismo está morrendo?

Por Luisa Bretas

O desenvolvimento da tecnologia e as novas formas de difundir informação, de fato, já foram vistos como uma ameaça ao jornalismo. Essa ameaça apareceu com o surgimento da televisão, com o uso excessivo da internet, com a diminuição de venda de jornais e revistas, dentre outros. Mas essas novidades apenas mudaram a forma de apresentar o jornalismo, não representam, necessariamente, seu fim.

A internet é um meio onde todos conseguem espaço. Qualquer pessoa pode produzir conteúdo. Essa é sua grande vantagem e, infelizmente, sua grande desvantagem também. Jornalismo tem sido confundido com entretenimento. Blogs, como o da jornalista Fabíola Reipert, e sites, como o Ego, traziam “notícias” questionáveis, inclusive quando observadas sob a ótica do valor-notícia.

Valor-notícia, segundo Mauro Wolf, é o que compõe a noticiabilidade, ou seja, é o que define se um acontecimento é interessante e significativo o suficiente para se transformar em notícia. Os fatos a serem levados em consideração para avaliar o valor-notícia de um acontecimento são: o impacto que causará na nação, o grau ou nível hierárquico dos envolvidos (se são famosos, políticos ou influentes), a quantidade de pessoas envolvidas e a relevância e significância para a sociedade, sem descartar, é claro, a atualidade e a qualidade da notícia.

O portal Ego, do Grupo Globo, expõe a vida íntima dos famosos. Fotos de papparazzi, brigas, fofocas e polêmicas são trazidas e discutidas sem muita confiabilidade na fonte. O veículo, depois de 11 anos na ativa, vai acabar neste ano. O portal publicou uma notícia com o seguinte subtítulo: “Amores revelados, romances que chegaram ao fim e cliques indiscretos que mostraram a intimidade das celebridades durante 11 anos”. Por essa descrição do próprio site, deduz-se o conteúdo apresentado.

O blog de Fabíola também segue a linha de colocar sob os holofotes a vida íntima de famosos. “O blog apurou que vááááááárias periguetes que haviam sido convidadas ficaram de fora. Foram barradas pela atriz. E ficaram super decepcionadas, tadinhas. Bruninha fez Neymar chamar alguns casais de famosos e deixar de lado o povo que adora ver o circo pegar fogo, as moças desinibidas etc. Ela exigiu que fosse uma festa mais familiar.”

Por este trecho, de matéria retirada do blog, em que se fala sobre o casal formado por Bruna Marquezine e Neymar Jr., pode-se ver que, além do assunto não pertencer ao interesse público, a forma de escrever passa pouca credibilidade. O tom irônico leva a pensar a respeito da falta de qualidade da notícia, certo? Infelizmente, não. A notícia possui mais de 60 comentários de internautas discutindo a vida íntima do casal, falando quanto tempo vai durar o namoro, apoiando e falando mal da atitude de Bruna Marquezine, dentre outros posicionamentos.

O sucesso do blog saiu da internet e foi parar na TV. Fabíola Reipert apresenta o quadro “A hora da venenosa”, no programa Balanço Geral, da Rede Record, todos os dias. O quadro tem duração de uma hora e a jornalista comenta a vida dos famosos, especulando e ironizando fatos da vida privada deles.

Esses programas não possuem conteúdos significativos e importantes para a sociedade. Por mais que um ou outro elemento do valor-notícia esteja presente, como o grau hierárquico das pessoas envolvidas, vale a reflexão se os outros fatores estão presentes e o que caracterizaria uma notícia real. Qual outro intuito teria o programa que não o de alimentar o entretenimento falando e especulando fatos da vida de pessoas que, por mais que apareçam em programas e filmes nas televisões das mais variáveis casas, são pessoas como quaisquer outras com intimidades, segredos, polêmicas e brigas? Por que tornar os casos familiares delas como públicos é aceitável e assistido?

O jornalismo não está morrendo, o entretenimento que está ganhando mais espaço e os ocupando junto ao jornalismo. Há muita novidade, informação, atualidade e cultura para ser divulgada para as pessoas ao invés da vida privada dos outros. Claro que há quem goste de consumir este tipo de conteúdo, caso contrário o blog não teria se estendido para a TV. Mas o importante é não confundi-lo com jornalismo.

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