Lula, Moro e o herói que precisamos

Por Lorena Fraga

Na última quinta-feira, 10, o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva compareceu à Justiça Federal de Curitiba (PR), para prestar depoimento ao juiz Sérgio Moro, sobre o caso do tríplex no Guarujá com valor estimado de R$3,7 milhões. De acordo com denúncia da força-tarefa da Operação Lava Jato, o imóvel foi ofertado a ele pela empreiteira OAS como parte do pagamento de propinas devido ao PT referente a três contratos obtidos pela empreiteira junto à Petrobras. Um ato bastante comum se tratando de um processo penal, se não envolvesse as duas figuras de maior destaque na história da política brasileira recente.

Com ares de final de Copa do Mundo, diversos meios de comunicação, antes mesmo da data marcada para a audiência, já especulavam os possíveis desdobramentos, do que foi caracterizado como “O dia D da política nacional”. O jornal espanhol El País ganhou traços de revista adolescente quando, com base nos signos de Moro e Lula, descreveu o comportamento de cada um deles fazendo uma alusão aos elementos fogo e gelo. “Lula é fogo, Moro, gelo”, estampava o artigo.

Na manhã do dia 10, o Bom dia Brasil, telejornal matinal da Rede Globo, já anunciava que iria acompanhar o dia de Lula e dava informações que oscilavam no grau de relevância, como detalhes sobre o jatinho em que o ex-presidente voaria pra Curitiba, o Cessna Citation CJ3. Já em Curitiba, não se falava em outra coisa: ruas foram fechadas, a imprensa desembarcava em peso, militares nas ruas para mediar protestos de manifestantes simpatizantes de Moro, e os favoráveis a Lula. Um cartaz com a caricatura do presidente em vestes de presidiário e a frase “Seja bem-vindo. A ‘República de Curitiba’ te espera de grades abertas” se espalhava por todos os cantos da cidade, estampado em outdoors.

A expectativa era tamanha, que antes do depoimento do réu, já se cogitava a possibilidade de uma prisão instantânea por desacato. Como em rituais de uma apresentação de UFC, Moro veio a público pedir que seus simpatizantes — e apenas eles — ficassem em casa e não atrapalhassem o trabalho da justiça, alegando não ter desafetos com o ex-presidente, o qual é acusado de perseguir desde meados de 2014.

Com discurso afiado e declarações de inocência, Lula chegou ao prédio da Justiça Federal — que foi fechado exclusivamente para o evento. A espera pelas primeiras imagens de dentro da sala onde ocorria o depoimento e as declarações de Lula foi tanta que causou a impressão de que as palavras proferidas ali, pelo ex-presidente, iriam desencadear um efeito borboleta que culminaria ou no fim ou no renascimento do país, com direito a status de potência superdesenvolvida.

Depois de mais de 5 horas de espera, com o fim do depoimento, veio o incêndio de notícias. Uma mídia efervescida realizou o que o jornal francês Le Monde classificou como um “show”, não no sentido positivo, mas no sentido de superexposição, transformando um acontecimento sério em um espetáculo midiático que instigou, ainda mais, a ruptura do país.

O depoimento de Lula, superestimado pela mídia, fez parecer que, finalmente, após anos de debates políticos em rede sociais, o brasileiro teria a tão aguardada resposta sobre qual grupo era detentor da verdade e da razão. Mais do que um esclarecimento à justiça, o depoimento do ex-presidente era, na verdade, uma eleição de qual era o verdadeiro herói brasileiro: Lula, o pai dos pobres, ou Sérgio Moro, o justiceiro.

Em meio a uma crise que vai além da econômica, atingindo também a moral, o brasileiro se agarra em heróis midiáticos na busca de uma representação, que não se vê há muito tempo. Como uma criança órfã, o olhar da nação se volta pra aquele que poderá acolhê-la e suprir suas expectativas, sem subestimar sua inteligência, causando frustração no futuro. Uma nação que se agarra a homens, na esperança de que eles possam resgatar sua fé no Estado e lhes guiar rumo ao ideal da tão sonhada democracia. Sem, entretanto, perceber que o verdadeiro herói que o povo precisa, está no debate político saudável e na desmistificação de homens públicos, como panteões da moral e da ética, que não são.

Homens são falhos e podem levar à destruição da nação. Já passou da hora de entendermos que o único herói que pode salvar a nação e dar esperanças de um futuro melhor é o debate saudável e limpo.

Publicidade

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s