Ricardo Noblat, Vidente Carlinhos e a falsa renúncia de Temer

Por Malu Diniz

A não ser que o leitor estivesse em isolamento total nesta última quinta-feira (18), deve ter chegado aos ouvidos o rumor a respeito da possível renúncia do nosso atual presidente, Michel Temer. O motivo da renúncia seria as gravações que registram o diálogo entre o presidente e o empresário Joesley Batista, divulgadas na última quarta-feira (17).

No entanto, esse não foi motivo da especulação a respeito da renúncia de Temer. Os rumores começaram, de fato, a partir  da coluna do jornalista Ricardo Noblat, no jornal O Globo. Em seu texto, Noblat afirma que a decisão de Temer pela renúncia era certa e que o anúncio viria no início da noite.

Isso foi suficiente para, sem confirmação alguma do Planalto, diversos veículos do país replicarem a informação, como Folha de São Paulo, Estadão, Pragmatismo Político, Metrópoles e outros mais. A maioria se resguardou e citava a informação como palavras do colunista de O Globo, mas tiveram aqueles que se colocaram como donos de uma notícia de primeira mão.

As palavras de Noblat estavam disponíveis no jornal online a partir das 15h06. Às 15h23, quem estava assistindo o programa Estúdio i, do canal Globo News, pôde ver a comentarista de política Cristiana Lôbo afirmar que o estúdio recebeu uma mensagem dos assessores de Temer que dizia para a imprensa “esquecer a renúncia”. A imprensa não esqueceu e as especulações continuaram pelos próximos minutos.

Às 16h, o presidente Michel Temer anunciou publicamente que não renunciaria. Para aqueles parte do público que apoiava a renúncia, o sentimento de perda. Para os contra a renúncia, a alegria.

Não é a primeira vez que colunas como a de Ricardo Noblat causam falsas expectativas e desilusões aos leitores. Em 2014, o colunista, também de O Globo, Alcelmo Gois noticiou a morte do escritor Ariano Suassuna, que até então estava vivo, mas com frágil estado de saúde. Quando Gois apurou melhor o assunto e concluiu que Ariano ainda estava vivo, atribuiu o seu erro à fonte, a Academia Brasileira de Letras.

Por mais que colunas sejam um texto de opinião do jornalista, elas devem trazer fatos reais e serem embasadas em dados e fontes confiáveis. Palpite por palpite, então por que os veículos não anunciaram a renúncia de Temer desde o ano passado? Em 2016, o “vidente mais famoso do Brasil”, o Vidente Carlinhos, anunciou a renúncia de Temer, a prisão do ex-presidente Lula e muito mais.

Porém, o Vidente Carlinhos não é reconhecido como jornalista e não faz suas previsões em jornais de credibilidade como O Globo. Credibilidade que pode ser questionada quando colunas como a de Ricardo Noblat e Ancelmo Gois fazem anúncios que possuem tantas chances de serem verdades quanto as previsões do vidente que estão se provando.

Diferente de Ricardo Noblat e Ancelmo Gois, o Vidente Carlinhos não está sob o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros. De acordo com o artigo 4º do Código “o compromisso fundamental do jornalista é com a verdade no relato dos fatos, razão pela qual ele deve pautar seu trabalho pela precisa apuração e pela sua correta divulgação.”

Noblat

Ainda assim, Ricardo Noblat, ao invés de pedir desculpas públicas pelo seu equívoco, mantém seu posicionamento . Segundo ele, “A permanência Temer é temporária”. Talvez tenha aprendido algo com o Vidente Carlinhos e desistido de prever datas específicas. De todo modo, está na hora de colunistas como Noblat ou desassociarem sua imagem do profissional de jornalismo ou começarem a fazer jornalismo de verdade.

Créditos imagem de destaque: Beto Barata/PR

 

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