Dois impeachments, um desejo?

Por Natália Fechine

Dois impeachments em menos de dois anos impactam qualquer pessoa dentro ou fora do Brasil. Recebi uma mensagem de uma amiga americana, que estava aqui durante o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousselff (PT), e ela perguntava sobre o escândalo no governo Temer. Ela queria saber como aconteceria o processo de retirada de mais um presidente e parecia não acreditar na possibilidade desse tipo de crise política. Os brasileiros também não, até esta semana.

Na eleição de 2010, a chapa Dilma-Temer era vista como herdeira do governo Lula e necessária para continuar o desenvolvimento da nação com a primeira mulher na presidência. Em 2010, tentou-se construir uma imagem de mulher forte que poderia governar a nação. Já em 2014, Dilma precisou lutar e atacar adversários para conseguir votos.

A cobertura jornalística da campanha nos grandes jornais se baseava em ataques aos candidatos. Soltavam escândalos – como no caso da ex-ministra da Casa Civil Erenice Guerra, sobre a qual pairava a denúncia de que o filho cobrava para projetos privados acontecerem junto a órgãos públicos –, e não focavam em propostas políticas. Não havia muitos debates para mostrar divergências e propostas dos candidatos e a lacuna foi preenchida por propagandas partidárias.

A população estava descrente após o acidente que matou o então candidato à presidência Eduardo Campos (PSB), em 2014. Sua candidata à vice, Marina Silva (PSB), não tinha tanta credibilidade para concorrer ao segundo turno. Assim foi levado até o último instante: pouco mais de três pontos percentuais reelegeram Dilma Rousseff, mostrando quão dividido o Estado estava.

Logo após a posse, a mídia e a população começaram a questionar o resultado da eleição. O escândalo das pedaladas fiscais surgiu e os protestos ganharam as ruas, com ampla cobertura da imprensa. Todos de verde e amarelo para celebrar a nação, a democracia. E se é democracia, pode haver impeachment. O processo levou quase um ano e, ao final, Dilma não foi condenada pelos crimes de responsabilidade fiscais e nem perdeu os direitos políticos. Contudo, o mandato foi cassado.

O então vice-presidente, Michel Temer (PMDB), assumiu o cargo em 12 de maio de 2016. Há pouco, o governo dele completou um ano e outra crise se instalou. As provas indicam o envolvimento do presidente com a lava-jato e com esquemas de corrupção e o furo dado pelo Jornal Nacional mostra gravações do empresário Joesley Batista para a compra do silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha.

O processo caminha mais rapidamente dessa vez. Na quinta-feira (25), a OAB entregou o pedido de impeachment de Temer à Câmara dos Deputados. A mídia tem papel de influência, somos dependentes das informações. As centrais sindicais chamaram as pessoas para irem às ruas na quarta-feira, (24), protestar contra as reformas do governo, entretanto, após o movimento, as manifestações foram reduzidas ao confronto com a polícia. Dessa forma, a legitimidade é retirada e se inicia outro ciclo de descrença.

O desejo comum a todos os brasileiros – e até daqueles que se sentiram brasileiros por algum tempo – é superar a corrupção generalizada. A fé de que essa situação acabe nos une e o que importa é continuarmos como nação e com aquele orgulho o qual somos tão conhecidos.

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