A Cracolândia não é um lugar

Por Lorena Fraga

Em 21 de maio, sob o comando do prefeito de São Paulo, João Dória (PSDB), e com apoio do governo do estado, mais de 900 agentes das polícias militar e civil realizaram megaoperação no centro de São Paulo para acabar com o tráfico de drogas no local e extinguir a chamada Cracolândia. Em meio a aplausos e vaias, o prefeito — que deseja ser candidato à Presidência da República em 2018 — utilizou o Facebook para dizer a seus eleitores que, após 20 anos, a Cracolândia finalmente havia acabado.

Quase dez dias depois da operação, em 30 de maio, portais de notícia divulgaram que Andreas Richthofen, irmão de Suzane Von Richthofen — condenada a 39 anos de prisão por, junto ao namorado Daniel e ao cunhado Cristian (os irmãos Cravinhos), assassinar seus pais em 2002, enquanto eles dormiam — foi retirado da região, sob efeito de drogas.

Apesar de equivocada — uma vez que ficou constatado que Andreas foi encontrado em uma casa no bairro Chácara Flora e não retirado da Cracolândia, a notícia sobre o irmão de Suzane foi rapidamente viralizada. Em meio à comoção gerada pelo fato, surgiram questionamentos e debate sobre as pessoas que vivem na Cracolândia, suas histórias e nossa seletividade.

O centro de São Paulo sempre foi conhecido como a “Boca do Lixo” da cidade, um lugar marginalizado, marcado pela concentração de prostíbulos, jogatina e tráfico de drogas. Localizado entre a Rua Helvética, a Alameda Dino Bueno e Cleveland, e a avenida Duque de Caxias, o chamado “Quadrilátero do Crack” abriga o efeito mais recente de uma deterioração que vem se arrastando há muito tempo no seio da capital paulista: a Cracolândia.

Nos anos 1990, com o auge da violência em São Paulo, começaram a ocorrer chacinas e extermínio dos chamados “nóias”, principalmente nas periferias da cidade, onde viviam espalhados. Em 1992, somando a facilidade de consumir e vender drogas surgiu a “Terra do Crack”.

O lugar sempre foi negligenciado pela lei e, de acordo com o estudo “Circuitos de uso de crack na região central da cidade de São Paulo”, da psicóloga Luciane Raupp e do cientista social Rubens Adorno, com sua consolidação entre as gestões de Paulo Maluf (1993-96) e Celso Pitta (1997-2000) a Cracolândia ganhou o status de “Nação independente”. No mercado negro de drogas, tornou-se um lugar com maior facilidade de comercialização dos entorpecentes, uma vez que, nas periferias, a dificuldade é maior, por ser necessário pedir autorização do traficante que comanda o local.

A Lei de Drogas (Lei 11.343), aprovada no Brasil em 2006, torna ilícito o consumo de drogas em todos os estados da federação, prevendo uma pena que varia de cinco meses a quase um ano pra quem for pego portando substâncias (dependendo da quantidade) e de cinco a 15 anos pra quem praticar tráfico e comércio ilegal de drogas. Desde o século 20, o mundo trava uma guerra às drogas. Nunca deu certo, pois o consumo jamais foi controlado. Alguns países, como Brasil e Colômbia, chegam a beirar uma guerra civil combatendo o narcotráfico.

Sem distinção entre viciados e traficantes e com poucas pesquisas na área, o Brasil se mostra perdido em uma guerra que já dura décadas. Não se sabe ao certo como o crack, especificamente, se alastrou dessa forma pelo país. Acessível e com devastador poder de vício, a droga, em sua fase inicial, atingiu populações mais vulneráveis, crianças e moradores de rua, até alcançar outras classes sociais, chegando à elite. Apesar de tentativas de pesquisa, até hoje não se consegue ter real dimensão sobre a propagação da droga e seus efeitos.

Sem rumo, por vezes, são adotadas medidas truculentas que, ao invés de combater, fazem com que o problema aumente. A Cracolândia é pauta no estado de São Paulo e no Brasil inteiro desde seu surgimento. De todos os programas adotados até hoje, o que melhor funcionou foi o “Braços Abertos”, implementado pela gestão de Fernando Haddad (PT), em 2014.

Com estratégia de redução de danos e reintegração do dependente à sociedade, tirando-os da situação de rua e oferecendo a possibilidade de exercer uma atividade remunerada. O programa teve altos índices de sucesso e reconhecimento nacional e internacional. Porém, chegou a se perder um pouco, ao adotar ações de represália na busca de higienizar o espaço da Cracolândia, retirando a chamada “favelinha”. O “Braços abertos” teve seu fim em maio de 2017 quando foi implantado o “Redenção” de Dória.

O programa “Redenção” tem como principais medidas o fim da Cracolândia como espaço físico e a internação compulsória (ou forçada) do dependente químico. Esta última gerou polêmica. Enquanto uns afirmam que os dependentes não tem poder de escolha, uma vez que não estão em condições físicas e psíquicas para decidir o melhor para si, especialistas garantem que a medida não adianta, porque a decisão de abandonar o vício tem que, sobretudo, ser do paciente. O consenso médico, técnico e jurídico admite a internação compulsória em casos especiais e com medidas adequadas, sempre a partir de uma abordagem e avaliação individualizadas do dependente, o que não está previsto no programa de Dória.

Após a operação, moradores da Cracolândia se dispersaram por vários cantos da cidade, se concentrando principalmente na Praça Princesa Isabel, que já está sendo chamada de “A nova Cracolândia”. Enquanto isso, chutando os escombros das derrubas de casas e barracos que a operação realizou, Dória, usando de demagogia na busca de criar um culto em torno de si, garante: “A Cracolândia acabou”. A afirmação contradiz as imagens veiculadas pela mídia dos moradores perambulando pela cidade.

É fato que atitudes precisam ser tomadas em relação às drogas. Precisamos, sobretudo, pensar na dependência química como uma doença e não uma escolha. A história de Andreas von Richtofen comove por sabermos do seu passado, da perda dos pais e imaginarmos os possíveis caminhos que o levaram ao crack. O caso, apesar de não se passar na Cracolândia, nos desperta a pensar as histórias de quem vive lá e os motivos que levaram o dependente ao mundo das drogas: não se limita ao uso por diversão, ao contrário do que muitos julgam.

Ao passo que a solução parece distante, podemos nos espelhar no exemplo dos nossos colonizadores. Portugal descriminalizou as drogas em 2001 quando o número de viciados ultrapassava 100 mil pessoas. Em 2015, caiu pra 30 mil, fazendo-o se tornar o país com as menores taxas de consumo de drogas entre jovens na Europa. Já os Estados Unidos possuem um tribunal especializado em crimes relacionado às drogas. Desde a criação, já reduziu em mais de 60% o número de viciados, que alcançava 300 mil pessoas.

Ao mesmo tempo, o prefeito busca transformar a megametrópole em uma capital com requintes de Nova York e Londres, sem desapegar de conceitos retrógrados. Utiliza ações truculentas e higienistas, não-regulamentadas, para tratar um assunto de saúde pública, como marketing baseado na ação policial e criminal. Buscam-se culpados de maneira simplista, um problema que, há anos, é estudado.

Com interesses pessoais, uma vez que a região é visada pelo mercado imobiliário, Dória faz da Cracolândia um nome a ser removido, sem enxergar nela pessoas que ali vivem e famílias por trás dessas pessoas, que clamam por ajuda. O fato é que expulsar, quem vive em condições sub-humanas, dando-lhes apoio precário, baseado em barbárie e amedrontamento, é desumanizar, ainda mais, aqueles que a sociedade marginalizou. Precisamos pensar na Cracolândia não como lugar incômodo a ser removido para que a mazela não fique visível aos olhos. Precisamos pensar que aquele lugar é formado, sobretudo, por pessoas que ainda possuem a chance de viver, com dignidade.

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