A noticiabilidade do atentados

Por Luisa Bretas

Nas últimas duas semanas ocorreram dois atentados, um em Manchester, Reino Unido, onde o show da cantora pop Ariana Grande havia recém encerrado, e outro na London Bridge, em Londres, ambos assumidos pelo Estado Islâmico (EI). Um atentado terrorista é caracterizado como um ataque a um local público, de bastante movimento com o intuito de causar pânico e insegurança nas pessoas, promovendo certo poder às entidades terroristas.

Como a imprensa deve agir nesses casos? Não existe um manual ou um protocolo a seguir, mas o cuidado deve ser dobrado. Se o terrorismo acontece justamente para causar pânico e mostrar sua capacidade em atacar locais que façam parte do cotidiano das pessoas, como bares, restaurantes, ginásios, o jornalismo não estaria fazendo um favor a esses grupos ao divulgar o atentado?

É fato que, depois de um atentado, as pessoas desejam saber o estado das vítimas, que podem ser amigos, familiares, conhecidos, vizinhos. O horror do ataque provoca solidariedade e união entre as mais diversas pessoas, mas a forma como o fato é noticiado, acaba, infelizmente, dando mais força aos ataques.

Dois elementos podem exemplificar essa força. O primeiro é o destaque das notícias nos mais variados jornais nos últimos dias, como G1, Folha de S. Paulo, Estadão, El País, entre outros. O segundo é aquele quando casos semelhantes acontecem logo em seguida, como o sequestro na Austrália na manhã da última segunda-feira (5) e o assalto em um cassino em Filipinas. Em ambos, o Estado Islâmico assumiu as ações, mesmo após as autoridades descartarem qualquer evidência do envolvimento do EI no assalto.

Os jornais que noticiaram os atentados, principalmente o de Manchester, traziam a identidade do terrorista e a origem de sua família, geralmente muçulmana. Porém, como ressalta a coluna da Folha de S. Paulo, salientar estes pontos só provoca mais preconceito e não ajuda no combate ao terrorismo.

O Estado Islâmico existe e é errado associá-lo ao islamismo como sinônimo, provocando ódio do Ocidente em relação aos muçulmanos. Talvez uma maneira de amenizar o preconceito fosse, ao invés de alimentar esse ódio e essa separação, promoverem mais políticas de inserção cultural e social para que esses religiosos não possuam o sentimento de minoria e rejeição, o que contribui para o extremismo religioso.

É evidente que o assunto é delicado e complexo, e por este motivo o papel dos jornais deve ser muito cuidadoso. Noticiar um atentado é realmente necessário e traz utilidade pública ou pode ser uma forma de incentivo a novas práticas?

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