Quem é que não deu certo?

Por Mariah Aquino

A escola Instituição Evangélica de Novo Hamburgo (IENH), no Rio Grande do Sul, tornou-se alvo de grandes críticas nesta semana após a divulgação de fotos de um trote de alunos do 3º ano do ensino médio, ocorrido em 17 de maio. Nos intervalos, eles confraternizaram vestidos de profissões diferentes daquelas que escolheram. Com o tema “Se nada der certo”, fantasiaram-se de faxineira, churrasqueiro, revendedor de cosméticos, empregada doméstica, atendentes de lojas, dentre outras ocupações julgadas como inferiores.

O colégio Marista Champagnat, unidade de Porto Alegre, teve atividades parecidas em 2015. Em nota, diz ter reconhecido o teor inapropriado do recreio temático e aboliu a prática. Em escolas públicas e particulares de todo o país, a festa do “Se nada der certo” é feita como parte das comemorações de encerramento do ensino médio. A IENH afirma que não havia a intenção de menosprezar profissões, apenas “trabalhar o cenário de não aprovação no vestibular” e “auxiliar na sensibilização dos alunos quanto à conscientização da importância de pensar alternativas no caso de não sucesso no vestibular e também a lidar melhor com essa fase”.

Essa prática levanta o debate acerca da meritocracia e dos privilégios. Um grupo de estudantes, em sua maioria de classe média alta, escolhe se vestir como profissionais que, para eles, não deram certo. Mesmo sem saber, são ensinados a perpetuar preconceito de classes e tornam-se cidadãos sem empatia, incapazes de enxergar a realidade fora da bolha de privilégios na qual estão inseridos. Para eles, é normal terceirizar tarefas domésticas, por exemplo, e não reconhecer como iguais os trabalhadores que prestam esses serviços.

Como escola, é importante que a instituição se comprometa com a formação ética dos alunos, o que é desestimulado nessa situação. No Brasil, de acordo com estudo do Programa Internacional de Avaliação dos Estudantes (PISA), mesmo que 44% dos estudantes do ensino médio trabalhe antes ou depois das aulas, os empregos tidos como “iniciantes” ou que não exigem curso superior são menosprezados pela elite.

Logo depois da festa, imagens foram divulgadas e se espalharam pelas mídias sociais. Muitas pessoas começaram a atribuir as fotos ao colégio Marista Champagnat de Porto Alegre mesmo que a instituição tenha abolido a prática e reconhecido o teor preconceituoso. As páginas da instituição receberam inúmeras críticas e avaliações negativas, prejudicando-a. Dentre as diversas respostas da festa do IENH, a de Marcio Ruzon, que inclusive comete o mesmo erro de confusão das escolas, merece destaque por levantar pontos importantes na discussão:

 

É importante que as escolas tenham em mente a importância da formação de alunos conscientes e que saibam respeitar os profissionais à sua volta. Numa época de tamanha intolerância, torna-se muito importante conscientizar as crianças e jovens e despertar, desde cedo, o desejo por um mundo mais livre e justo.

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