Crédito: Divulgação

As mulheres que salvaram a DC Comics

Por Ana Carolina Fonseca

Patty Jenkins precisou de mais de uma década para convencer Hollywood a amar Diana Prince. A premiada diretora passou anos vendendo para estúdios e produtores sua visão da Mulher Maravilha, icônica heroína dos quadrinhos da DC Comics. Desde a primeira reunião com executivos até o lançamento do filme, 13 anos se passaram.

Mesmo depois de conseguir o posto de diretora (após a tarefa ter sido passada, inicialmente, a Michelle MacLaren, que deixou o filme por conflitos criativos com o estúdio), Jenkins teve que se esquivar das críticas e ameaças. Muitos diziam que ela não tinha qualificação para dirigir um blockbuster, um filme desse peso. As consequências eram claras: se falhasse, não haveria outra chance. Este é um desafio impensável para muitos diretores homens, que não perdem espaço mesmo após filmes medíocres.

Essa é a relação de Hollywood com heroínas: grandes filmes de ação protagonizados por mulheres são poucos — em 2016, apenas 29% dos 100 filmes de maior bilheteria — e sempre cercados de achismos. Por muitos anos, a justificativa oficial dos estúdios para não darem uma chance às heroínas sempre foi igual.

Segundo eles, seria um gênero de nicho, atraente apenas para uma parcela das mulheres — nem todas gostam de ação e super heróis — e ainda menos convidativo para homens. Foi esse argumento que a Marvel deu quando questionada sobre a ausência de um filme solo da Viúva Negra, interpretada, nos outros filmes da franquia, por Scarlett Johansson.

Mulher Maravilha (2017) rompeu todas essas barreiras. No fim de semana de estreia, quebrou recorde como o filme dirigido por uma mulher com maior venda de bilheterias mundial (US$ 223,5 milhões). Em apenas uma semana, já estava na lista de filmes mais assistidos do ano, em 12º lugar. Ultrapassou outras estreias de destaque, como Piratas do Caribe. Antes de ser lançado para o público, já tinha acumulado críticas elogiosas.

No Rotten Tomatoes, agregador de críticas profissionais e de fãs, conta com aprovação de 93% e 92%. Mais do que Batman vs. Superman: A Origem da Justiça, a tentativa prévia da DC de reinventar personagens no cinema, que obteve apenas 27% de aprovação dos críticos.

Nada disso foi suficiente para impedir a máquina de machismo e misoginia de Hollywood. Após comemorações iniciais do sucesso, surgiram os mal-humorados de plantão. É verdade que o filme não é perfeito, cai em muitos clichês de sagas de super-heróis e deixa a desejar nos efeitos especiais do final – e essas críticas são muito válidas. No entanto, o que tem acontecido é uma tentativa de rebaixar a importância de Mulher Maravilha como um marco para o cinema.

“Mas o filme é machista, ela está de colã apertado e saia”, dizem. Aqui, está outra diferença de se ter uma mulher como diretora. O olhar das câmeras em momento algum sexualiza Diana Prince e a atriz Gal Gadot. Sabemos que a protagonista é bonita. Isso fica claro na tela e na reação de outras personagens, mas nunca ficamos presos ao male gaze, à visão da mulher como objeto de prazer para os homens.

E, afinal, Diana cresceu em uma ilha paradisíaca só de mulheres. Jamais teve que se preocupar com o conceito socialmente criado de pudor. Nunca teve que lidar com assédio de um homem na rua. E treinava sob o sol. Por que deveria ter vergonha de expor as pernas? Se estamos incomodados com a falta de roupas da heroína, talvez esse seja um problema nosso, não dela.

Há quem diga que ressaltar a presença de uma mulher no comando da produção e da história acaba criando mais divisões de gênero. O erro, nesse caso, é subestimar o significado do sucesso de uma mulher em um lugar quase inteiramente dominado por homens: Patty Jenkins na direção de um blockbuster de ação, Diana Prince na Primeira Guerra Mundial, Mulher Maravilha na lista de filmes de heróis.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s