A cobrança na universidade

Por Lorena Fraga

Medo. Dificuldade de concentração. Ansiedade. Insônia. Perda de energia. Irritabilidade. Frustração. Sensação de impotência. Esses são sintomas tipicamente associados a transtornos psicológicos, como ansiedade e depressão, mas não é preciso recorrer a especialistas para que se ouça falar deles. Basta um breve diálogo com jovens alunos, de diversas universidades do país, para que logo uma dessas palavras surja numa roda conversa. Como se esperassem a deixa, muitos relatam sentir recorrentemente um desses sintomas.

Parece absurdo que indícios de um possível transtorno psicológico sejam naturalizados dessa maneira em uma conversa cotidiana, mas não é. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), o Brasil se encontra em 8° lugar no ranking de países com o maior índice de suicídio no mundo. E os números não param por aí: 10% da população brasileira é ou já foi diagnosticado com depressão. Desses, 21% são jovens entre 14 e 25 anos. Entre as mulheres, a proporção é de 28%, segundo dados do 2º Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, realizado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Recentemente, a hashtag #NãoÉNormalUFV viralizou nas redes sociais, depois de um grupo de estudantes da Universidade Federal de Viçosa (UFV) organizar um evento para discutir problemas psicológicos — o que incentivou centenas de alunos a escreverem relatos de abusos cometidos dentro da instituição. Os posts falam de preconceitos, falta de apoio e, principalmente, denunciam um método de educação que eles consideram abusivo.

Em um dos relatos, uma aluna desabafou “#NãoÉNormalUFV você estar realizando um sonho, tudo na sua vida estar como queria, porém você não consegue parar de chorar”. Esse sentimento parece inerente à boa parte da população universitária, uma vez que a sonhada vaga em uma instituição federal pode se transformar em frustrações e sensação de incapacidade.

Segundo aponta o Fórum de Pró-reitores de Assuntos Comunitários e Estudantis [FONAPRACE], em uma pesquisa feita em 2010, mais de 45% dos estudantes de universidades federais brasileiras relatou sofrer alguma dificuldade emocional, sendo que a incidência é maior entre os primeiros e os últimos anos de faculdade.

A UFV não é exceção. A adaptação na vida universitária demanda que o jovem, desde o ingresso na instituição, apresente boa capacidade psicoafetiva para conseguir se adaptar e conviver no novo ambiente administrando suas exigências. Entretanto, os alunos iniciam a vida acadêmica recém-saídos de uma etapa que demanda extrema carga emocional e psicológica: o vestibular.

Alguns estudantes, principalmente em cursos de maior concorrência como medicina e direito, chegam a tentar mais de três vezes o ingresso em uma instituição federal. O cansaço devido à corrida pelo vestibular faz o jovem chegar à universidade debilitado emocionalmente, mas com esperanças de se recuperar e reparar coisas que lhe foram privadas durante o processo: amigos, família, descanso, vida social, hobbies e outros.

Entretanto, ao entrar na academia, o estudante se depara com um cenário de competição e exigência, que enfraquece, ainda mais, a sua já debilitada saúde mental. As elevadas expectativas, as demandas inerentes ao mercado de trabalho e as aspirações pelo futuro profissional e pessoal se tornam fatores decisivos na prevalência de problemas psicoafetivos, por vezes desconhecidos.

Isso pode levar à banalização de determinados sintomas. A identificação tardia ou mesmo o tratamento inadequado da depressão e da ansiedade, pode ocasionar problemas como consumo e dependência de substâncias psicoativas lícitas e ilícitas, alimentação irregular e prejudicial, sedentarismo, além de outras práticas que são negligenciadas e causam mal a saúde.

A sobrecarga de trabalhos, responsabilidades e prazo para cumpri-los acabam tornando-se contraditórios, uma vez que essas demandas dificilmente condizem com o tempo que os jovens têm disponível para dedicar-se à universidade, visto que também precisam se ater a outras áreas de suas vidas, que são igualmente importantes e necessárias.

Segundo o portal Caderno em Pauta esse assunto não é tão abordado e chega a ser negligenciado pelo corpo acadêmico, devido a um consenso silencioso de que a maioria das pessoas que desejam alcançar o sucesso pessoal e profissional necessita passar pela rotina de cansaço e esforço sobre-humano. Esse é um efeito colateral da sociedade meritocrática em que estamos inseridos.

Além disso, falta suporte psicológico. A maioria das universidades federais disponibiliza algum tipo de atendimento e/ou ouvidoria para todo discente que buscar ajuda. No entanto, esse serviço é muitas vezes desconhecido e pouco divulgado, devido ao tabu das instituições — um reflexo da sociedade — em tratar sobre a saúde mental dos estudantes.

Com o fim do período letivo e a chegada do prazo final para a entrega de provas, todos esses problemas são potencializados, e é importante que os alunos, entre si, se auxiliem, fomentando debate e refletindo: se sua saúde mental valesse uma nota acadêmica, qual seria ela hoje? Caso o resultado não seja positivo, é importante que o estudante procure ajuda médica. Saúde mental afetada pelos estudos não é normal, muito menos brincadeira.

Precisamos, com urgência, atualizar o conceito de “sucesso”, e desvincular a palavra de nomeações como “dinheiro” e “poder”. O sucesso diz mais sobre estar em paz consigo mesmo do que sobre um alto desempenho acadêmico.

É importante que os alunos se informem e procurem saber se suas universidades oferecem apoio psicoeducacional. Na Universidade de Brasília (UnB), esse serviço é oferecido pelo SOU- Serviço de Orientação ao Universitário, está presente nos quatro campi da Universidade.

SOU/Darcy Ribeiro:

Horário de funcionamento: das 8h às 12h e das 14h às 18h
Telefone: 31076375
E-mail: sou@unb.br

SOU/FGA:

Horário de funcionamento: das 8h às 12h e das 14h às 18h
Telefone: 31078909
E-mail: soufga@unb.br

SOU/FCE:

Horário de funcionamento: das 8h às 12h e das 14h às 18h
Telefones: 31078941 e 31078407
E-mail: soufce@unb.br

SOU/FUP:

Horário de funcionamento: das 8h às 12h e das 13h às 15h
Telefone: —
E-mail: soufup@unb.br

 

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