Apito final para a Rede Globo?

Por Marcos Miranda

Após manter, por muitos anos, o mesmo modelo de negócio para a transmissão de amistosos, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) resolveu apostar no diferente. Os jogos disputados contra Argentina e Austrália, em 9 e 13 de junho, não tiveram seus lances veiculados pela Rede Globo. A transmissão foi gerada pela entidade e os direitos foram acordados com a TV Brasil e TV Cultura, além da primeira exibição online em parceria com o UOL. Vivo e Itaú, patrocinadores da seleção, também transmitiram o amistoso.

Globo e CBF vêm conflitando desde o Jogo da Amizade entre Brasil e Colômbia, no início do ano, no qual, pela primeira vez, a emissora não deteve monopólio de transmissão na TV aberta. Isso ocorreu por conta da não renovação do contrato de exclusividade para veicular os amistosos da seleção. A partida disputada em janeiro, por se tratar de um jogo que arrecadou fundos para familiares atingidos pela tragédia da Chapecoense, teve transmissão liberada para todos os canais. Já para os amistosos deste mês, a cúpula da CBF decidiu produzir o próprio conteúdo.

Essa iniciativa de veiculação independente segue tendência mundial, na qual clubes e ligas produzem os próprios eventos e fazem parcerias com sites e mídias sociais. Nesse modelo, é possível arrecadar mais dinheiro com direitos de imagem, uma vez que a venda será feita individualmente e em diferentes plataformas, o que facilita o alcance para diferentes públicos e a internacionalização da seleção.

O primeiro caso brasileiro dessa mudança aconteceu na final do Campeonato Paranaense. Atlético Paranaense e Coritiba romperam com a RPC, emissora local afiliada à Globo, e a transmissão foi feita gratuitamente via Facebook e YouTube, amparada pelo canal Esporte Interativo. O Atletiba, como é conhecido o clássico, teve mais de 1,6 milhão de visualizações e figurou na primeira posição dos tópicos mais comentados no Twitter.

A audiência dos amistosos da seleção foi boa, porém não o suficiente para atrapalhar a média da Globo no horário. A medição prévia foi realizada pelo Ibope, na qual cada ponto equivale a 70 mil domicílios com televisão na Grande São Paulo. A partida contra a Argentina, com cobertura de Nivaldo Prieto, Denílson e Pelé, obteve 2,9 pontos de audiência entre as 7h12 e as 9h06, através dos canais abertos TV Brasil e TV Cultura. Já a TV Cultura aumentou muito o número de telespectadores, saindo de 0,4 ponto nas últimas quatro sextas-feiras para 2,3 pontos durante o jogo. A Globo, nesse período, manteve a média de público, com 11,3 pontos.

As visualizações no Facebook ultrapassaram a marca de 2,3 milhões de usuários e 200 mil acessos simultâneos em quase três horas de cobertura. Além disso, houve 194 mil reações, 35 mil compartilhamentos e 80 mil comentários no vídeo do jogo, segundo o blog Torcedores.com. Segundo matéria da Folha de S. Paulo, a transmissão do UOL alcançou 500 mil usuários, 150 mil simultâneos e um milhão de pageviews. Vivo e Itaú não divulgaram a audiência.

Embora não tenha incomodado a audiência, a perda da exclusividade sobre amistosos da seleção mexe com o ego e a tradição da Globo, que já vem perdendo monopólio no futebol desde a ascensão do Esporte Interativo. Esse canal assinou, no ano passado, contrato para exibição do Campeonato Brasileiro com 15 times das séries A e B, como Palmeiras, Santos, Internacional e Atlético Paranaense. Ele começa a valer em 2019 e perdurará até 2024, quando poderá ser prorrogado.

A CBF possui acordo com a Globo para transmissão exclusiva da Copa do Mundo de 2018 e 2022, além de suas eliminatórias. A entidade afirma que estuda novos métodos para venda de competições posteriores, nas quais pode adotar fatiamento de direitos, leilão com envelopes fechados e produção autônoma, como nos dois últimos jogos. Essa venda diferenciada pode prejudicar o desejo da Globo de manter o monopólio sobre eventos esportivos.

De imediato, essas mudanças não influenciam muito o império dos Marinho. Mas, a partir de 2019, sem transmissão dos jogos de grandes times do Brasileirão e com possibilidade de perder exclusividade nos mundiais, cabe ao departamento de esportes rever estratégias de marketing e maneiras de se adaptar às novas realidades. Por mais difícil que seja, a ideia é não perder mais contratos exclusivos, não só com times , mas também com patrocinadores.

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