Prostituição: até quando um problema social será usado para gerar cliques?

Por Mariah Aquino e Melissa Duarte

De todas as funções jornalísticas, sensacionalismo não deveria ser uma delas. Informar, acima de tudo. Formar opinião sempre que possível o que é diferente de opinar. Criticar quando for cabível. Tudo isso pautado por ótima apuração e busca pela imparcialidade, o que confere credibilidade. No entanto, parte desses princípios foram quebrados na reportagem “A vida nada mole dos garotos de programa de Brasília”, do jornal Metrópoles.

Publicada no último domingo (18), a matéria acompanha cinco homens do ramo da prostituição durante 15 dias e conta, sem aprofundamento, um pouco do dia a dia e de como trabalham cada um, o que acabou por fetichizá-los. A matéria começa e termina com um trocadilho que remete à ideia de órgão sexual masculino, dando o tom do texto.

A publicação é marcada pelo tom descritivo, sugestivo e fantasioso — presente, inclusive, na ilustração de capa. Apesar de não haver fotos, a imaginação dos leitores é estimulada para que se sintam parte da narrativa. No entanto, o mesmo teor que prende a atenção também é responsável pelo sensacionalismo e fetichização. Em tempos de crise jornalística, ter alcance e engajamento, sobretudo nas mídias sociais, é vital. Nesse ponto, a função é cumprida.

Os nomes dos garotos de programa ou boys, como gostam de ser chamados foram trocados e nenhuma foto foi divulgada, ao contrário do que aconteceu numa reportagem sobre fechamento de uma casa de festas adulta na Asa Sul. Nessa última, havia várias fotos das mulheres envolvidas, as quais podem ser identificadas apesar de não mostrarem os rostos. As duas matérias se preocupam mais em fantasiar o cotidiano de quem trabalha na área do que em problematizar e alertar sobre o risco para quem se prostitui. O SOS Imprensa já tratou do tema anteriormente.

O jornalista entrevista cinco homens, número de fontes considerado bom para uma matéria, para retratar várias facetas sobre o assunto. Porém, não é o que se lê. A visão mostrada é, de certa forma, a de quem tem privilégios, pois representam a classe média. Dois dos três entrevistados escolheram o ramo — usam o dinheiro para complementar a renda enquanto o outro realmente depende disso para sobreviver —, o que não condiz com a realidade de milhares de vítimas da prostituição.

O texto carece de dados sobre prostituição, sobretudo a masculina, o que gera um recorte específico da situação. Esse é agravado, ainda, pela abordagem que não mostra o toda da questão. Homens não são a maioria dos profissionais de sexo, atuam mais como intermediários ou facilitadores — o que, diferentemente de se prostituir, é crime, outro ponto pouco trabalhado no texto. Além disso, não traz posicionamento oficial, uma vez não há entrevistas com autoridades de segurança ou de saúde pública.

Sobram questionamentos, faltam respostas. A prostituição oferece inúmeros riscos para a saúde e a segurança de quem trabalha na área. No entanto, um deles, que é pouco pensado, é a desinformação. Uma parcela considerável não faz parte do ramo opcionalmente, mas por considerar que, às vezes, aquela seria a única opção. Por isso, o texto do Metrópoles não se mostra representativo, além de fetichizar a questão.

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